As tardes findas
Não digo que é sempre, minha querida, mas acontece. De vez em quando fico, aqui, acariciando as tardes, as tardes findas. Hora dos pássaros recolherem-se e, na árvore, escolherem um bom lugar; de preferência perto da sua amada. O calor do corpo amansa o frio, e desperta sentimentos embrulhados de volúpias. Fico tecendo fios, fios de ouro, o ouro das tardes. E outros fios se entrelaçam, os fios da memória. Saio puxando, um a um, e como é bom ver você, minha eterna menina, anjo do meu inferno, santa da minha inquisição. Deveria, eu, escrever nos céus, para que o mundo soubesse de ti? E te adorar como a mais bela e a mais perfeita das mulheres? O que dizer desse sorriso que promete céus mas encanta demônios?
Estou cansado, minhas letras estão cansadas, e horizontes já não há. Só há você, com o seu sapateado, com os seus olhos de bruxa-serpente, com o seu jeito puta e linda de ser. As tardes são findas, posto que tudo é findo. A esperança nos engana, acenando-nos como o último refúgio. A esperança é uma bijuteria da existência. Quero que você seja feliz, mas não quero vê-la feliz, me sentiria incapaz por não ser, eu, o causador da tua felicidade. Melhor assim. Pelo menos me restaram as tardes, onde eu posso povoá-las com o teu corpo e salpicá-lo de saudades. As tardes são findas. Posto que eterna é você.
Norton Ferreira.