Avoando

Ah, minha querida… Se quer saber, virei pássaro. “Vivo avoando. Vivo avoando sem nunca mais parar”. Sou pássaro das montanhas, dos abismos da vida. A planície deixei para o quero-quero, mais apropriada à sua natureza. Desde quando? Desde que eu percebi que a vida pode se tornar um eterno mascar do mesmo chiclete, onde nada mais se espera. Não sou águia, não sou falcão, são pássaros pomposos demais para mim. Também não sou rouxinol nem colibri: não tenho a poesia do primeiro nem a beleza e a destreza do segundo. Sou apenas um pássaro, pássaro comum e errante, em busca de novas paisagens.

No abismo eu mergulho, no despenhadeiro eu me deito. Tudo, menos o eterno mascar do mesmo chiclete. Veja, minha querida, estas letras, aqui, perfiladas: isso é um dos abismos por onde vivo sobrevoando, sobrevoando e mergulhando. Dias vivo, dias morro, e há dias que perco algumas poucas e desencardidas penas. Mas nem tudo está perdido, minha linda e ardilosa Macbeth. Continuo antigo em algumas coisas: no gostar e no amar. Grandes voos, nesse sentido, podem não encontrar chão de pouso, um galho sequer. Pessoas não são paisagens, que podem ser descartadas ou trocadas: só sei amar amando, gostar gostando. Pessoas são para voar com a gente. Avoar sem parar.

Norton Ferreira.