Carta a uma senhora

Minha Senhora,

Vai assim, substantivado, mais por respeito e gratidão do que por formalismo. Agradeço suas palavras; sou um bom colecionador de ilusões e dos poucos elogios. Se alguns escritos, meus, lhe ajudam a manter a esperança no amor, isso é mais dos seus nobres sentimentos, acredite, do que das minhas já desgastadas palavras. Ademais, alerto-lhe que, em algumas crônicas, no desamor pode estar o amor, e no amor pode estar o mais cruel desamor. Nada mais contraditório. Portanto, nada mais humano. Cada leitor entende do seu jeito: “O autor não deve se interpor no caminho do texto. O leitor é supremo na sua interpretação”, assim dizia Umberto Eco. Se alguns escritos são cem por cento ficção ou baseados em fatos reais, este é um segredo que a senhora não extrairá de nenhum autor. O que toca o coração eleva a nossa alma, e isso já é muito. Para não lhe parecer descortês, não me nego a dizer: ninguém tira de onde não põe.

A sua sugestão de compor os textos com fotos é pertinente e bem-vinda. E cabe, aqui. mais uma explicação: não uso fotos por pura maldade, com eles, os textos. Deixo que se virem sozinhos. “Não se salva alma em igreja vazia”. Se forem bons, serão bons. Se não forem, usar foto seria como jogar purpurina em fezes de cachorro. Pode ser que, uma hora, eles venham a ganhar alguma ilustração, em outras plataformas, mas aí já terão passado no teste cruel crudelíssimo da leitura pura e simples. Isso é só um pensamento meu, não é regra nem lei. Cada um faz como quiser. E vai, aqui, uma confissão: estou na crônica há quinze anos, e há dois comecei a postar, também, no Mr. Face. O primeiro “incentivo” que eu recebi, para postar aqui, veio de um amigo, versado nas artes plásticas: “Ninguém lê isso. As pessoas querem saber de fotos”. Hora penso que meu amigo estava certo, hora penso que ele estava errado; bem ou mal é o que sei fazer. A vida segue.

Por hora é o que eu tenho a dizer. Nessas coisas do amor sou um eterno aprendiz. Não tenho fórmulas nem segredos; escrevo sobre o que eu não domino. Nem eu nem ninguém. Mas, acredite: aqui dentro ainda bate um descompassado coração. Talvez, eu e a senhora, sejamos os últimos românticos. O que não é de todo ruim. Estamos em boa companhia.

Com respeito e admiração,

Norton Ferreira.