Carta ao Pássaro Azul

Estimado Pássaro Azul,

Agradeço o seu interesse em saber por que, volta e meia, escrevo no estilo das cartas. Razões tenho várias, meu Pássaro nobre, e não me furtaria em lhe responder. Logo você, que eu tomei emprestado de Bukowski, escritor amado por várias gerações. As cartas são, também, um estilo literário, o epistolar. Ademais, as pessoas gostam de bisbilhotar a vida dos outros, daí esse fascínio que elas, as cartas, exercem. Infelizmente, meu cantor das florestas, o gênero “carta” está sumido ou em extinção. Nesses tempos apressados, amado Pássaro Azul, a carta tornou-se uma iguaria rara, rara e refinada. Porque só ela, a carta, permite a conversa, a conversa em ritmo lento, divagante, como se a pressa da vida fosse uma pressa preguiçosa, A fala intimista, essa já não existe mais. É tudo reto, seco e objetivo. O calor, o sangue vivo nas palavras, esses não existem mais.

Que fique claro, meu grande tenor, que isso não é saudade de um tempo, é saudade das pessoas, do sabor que tinha a fala. Tudo é the flash ou fast food. Queria ver, rei da cantoria, Bukowski enjaulado em 140 caracteres. Estou pensando, até, meu Pássaro Azul, em montar uma banca de escrevinhador de cartas, especialmente cartas de amor. Só para ajudar os casais, especialmente nos e-mails de reconciliação. Vi um, outro dia, que uma moça me mostrou, e o rapaz era uma miséria no estilo da escrevinhação; além de seco e abreviado, era reto como um poste. Por isso, vez em quando, escrevo minhas cartas, para que eu não me transforme numa pessoa insípida, incolor e inodora. Nas cartas não vão só as palavras: vão a alma, o sangue, a alegria e o desespero.

Não precisa acreditar, meu lorde e majestoso pássaro. Mas… Veja: houve um tempo em que até as cartas de cobrança tinham lá o seu charme e romantismo, eram mais ou menos assim: “Prezado cliente, notamos que, talvez por esquecimento, vossa senhoria não efetuou o pagamento…” Repare bem, milorde pássaro, a empresa dizia que “notou”, como se isso tivesse sido por acaso. E ainda lhe dava, de pronto, o perdão do “seu” esquecimento. De toda forma, por gosto ou por teimosia, ficarei aqui, escrevendo minhas cartas, nem que sejam cartas ao vento. Ou para alguma amada descuidada.

Abril de 2016.