Carta ao Pequeno Príncipe

Venerado príncipe,

Espero, meu pequeno lorde, que o planeta que você escolheu para viver seja o sonho dos sonhos, a perfeição da perfeição. Perdoe-me o tratamento, venerado, caso você já tenha se tornado rei. Em sendo aqui, na Terra, você já seria dono do mundo, disso não tenho dúvidas. Marmotas de todos os quadrantes ocupam cargos e poderes. Imagine você, que é um príncipe decente. O assunto que eu tenho a tratar é assunto de gente grande, mas confio no seu entendimento. Veja: no meu país, crianças de cinco/seis anos assistem verdadeiras aulas de educação sexual na TV, logo cedo da tarde, e entram pela noite. Educação sexual, meu estimado, é modo de dizer: são sacanagens mesmo; performances de corar o quase ex-ministro da Cultura, Alexandre Frota. Lembra-se dele? Pois é… Normal no país do carnaval.

A bala e as perseguições policiais também correm soltas nas tardes das TVs. Ou seja: de tédio nossas crianças não morrem. Talvez seja uma preocupação besta, minha. Afinal, o que mais existem são leis que protegem a criança. Portanto, essa exposição de putarias, libidinagens e violência deve estar dentro da lei. “Agora mire e veja”, como diria Riobaldo, em Grande sertão: veredas: o comercial do “Meu primeiro soutien”, premiado no mundo inteiro e que mais parece um poema, seria vetado; hoje não rodaria nas TVs deste país exemplar, exemplo da ordem e dos bons costumes. Aqui, meu príncipe, não só a burguesia fede, como diria Cazuza, mas a hipocrisia também.

Brasil, fevereiro de 2017.

Norton Ferreira.