De livros e arrependimento

Digo-lhe com conhecimento de causa: nada melhor do que uma consciência tranquila, em paz. Penso que uma das maiores provações que uma pessoa pode passar é a amargura, o remorso, Desse martírio estou livre, tenho certeza. Nunca derrubei ninguém, nunca usei ninguém em benefício próprio. Pode até ter sido, ou é, um erro agir assim, mas ninguém nega a sua essência. Sou um pisciano típico: ou gosto ou não gosto, ou quero ou não quero, ou estou quente ou estou frio. Tudo o que eu fizer, ou disser, está estampado na minha cara. Não sou dissimulado, não faço o jogo. Eu não daria certo em algumas atividades que requerem jogo de cintura. Bajulação e engolir sapo não são comigo. Sou um péssimo escravo. Do pouco que eu tenho para me arrepender, é ter vendido meus 429 livros. Uns 130 sobre marketing em geral, e o resto só literatura. Basta dizer que, nessa parte da literatura, havia uma coleção de 52 volumes, que eu fiz semana a semana, de volume em volume, durante um ano. Capa dura, tradução do original, chamada Clássicos da Literatura Universal, que tinha de Shakespeare a Guimarães Rosa, de Balzac a Dostoiévski. Ainda faltava ler uns trinta e tantos, dessa coleção. Na minha separação, que foi tranquila e sem problemas, já com duas filhas criadas e formadas, a única coisa que de fato era só minha eram os livros. Isso em 2008.

Como eu ia viajar, contratado para fazer uma campanha política em Mato Grosso, e sabia que os livros não receberiam a devida atenção, resolvi vendê-los, pois só na minha volta é que eu resolveria onde ficar. Vendi a um Sebo, por um preço ridiculamente irrisório. Eram verdadeiras joias da literatura. Mas, pensei: em vez de correr o risco de ver esses livros se deteriorarem, é melhor devolvê-los ao mundo, para que eles ganhem novas mãos, que outros pais adotivos cuidem bem deles; que o conhecimento siga o seu destino, que é nos fazer pessoas melhores e menos estúpidas.
Meu arrependimento só é amenizado aí, pelo o que está dito nas últimas palavras. De toda forma, pensei: se os deuses quiserem, eles voltam. Mesmo que sejam em outras edições, eles voltam. O fato de irem parar em outras mãos, não diminui minha paixão. Pelo contrário, só aumenta. Também pensei: ora, livros são como filhos, a gente continua a amá-los, mesmo quando vão embora ou estão distantes. Confesso que passei um tempo com um imenso buraco na alma, sentia que faltava algo em mim. Caramba, meus livros, meus companheiros de todo dia. Meu refúgio e meu alicerce, o alimento do meu espírito… Os primeiros dias foram dias de agonia, de pesadelos e algumas poucas lágrimas. O conforto era esse: tem nada, não: um dia eles voltam.

Ainda segurei cinco, que pediram para que eu não os largasse: Madame Bovary, Otelo, Dom Quixote, Grande sertão: veredas e O retrato de Dorian Gray. Para você sentir o tamanho da perda, vou citar apenas esses aqui: toda a fase moderna de Machado de Assis (Dom Casmurro,; Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memorial de Aires); Lolita, A Ilíada, Fausto, A Divina Comédia, O Médico e o Monstro; O Idiota, Macbeth, A Metamorfose, O Cortiço, O Vermelho e o Negro; Moby Dick; O Velho e o Mar; Por Quem os Sinos Dobram; O Grande Gatsby e outros, e outros e outros. Gosto muito, da palavra; é ela que me pega e bota no chão. Trato-a com reverência, mexo com uma entidade que jamais vou dominá-la. Nem eu nem ninguém. Na palavra está o nosso espírito, a nossa alma, o que nós somos: para o bem ou para o mal. Ver os mestres da literatura tratar a palavra com beleza e maestria, me encanta e me põe no meu lugar: um simples mortal. Me dou por satisfeito em ver a grandeza da raça humana, que, ao mesmo tempo em que ela é capaz de absurdos, também é capaz de coisas belas. Ainda ajudei o rapaz a colocar os livros no carro. Não me lembro dos dez segundos que se seguiram à partida do automóvel. Fiquei no nonada, num imenso vazio. Se aquilo é a morte, posso dizer que experimentei.

Norton Ferreira.