Decifra-me

Veja o estado, minha Esfinge adorada, em que ficou o salão de festas do meu coração. Tudo carcomido pelo tempo, lembranças de uma festa que não vingou. O que era marcação dos convidados, agora passeiam as ratazanas. O que era ornado por balões de festa, virou playground de morcegos. Mas nem tudo está perdido, esse é o cenário perfeito para um filme de terror. Entre o sim e o não, eis o retrato do que um dia foi o amor. Nesse cenário, do meu coração, não me assustam os meus passos; virei fantasma de mim mesmo. Não arrasto correntes, mas carrego pedras e me banho em óleo fervente. Festa não houve, o tilintar daquelas taças permanecem em silêncio, esperando matar uma sede que naufragou. Manterei como está, admirando essa desgraça que seria o nosso futuro. Não sou versado nas tragédias, mas gosto disso aqui. E, me desculpe, não pretendo dividir com ninguém. Se é um infortúnio, que seja só meu. Mas, de uma coisa eu sei: sob a lua pálida de hoje já brilhou um grande amor.

Não esqueçamos: a coruja também canta, não importa se seu canto é belo, feio ou triste. Em vez de lastimar, esse amor, tornaria a vivê-lo. Ah, minha Esfinge querida, ainda está aqui na algibeira das lembranças. Eis o teu charme, o teu suave veneno: várias mulheres em uma só. Um dia, tênis; no outro, scarpin. Admirei tua calma, mas preferia a tua ansiedade. Via charme em tudo o que você fazia, até quando esbarrava nas coisas, com esse seu jeito descuidado, que falava como uma criança que foi pega em delito: “Desculpa!” Sabias mandar, sabias pedir. Ficava assim, em silêncio, ouvindo você falar das suas paixões, dos seus planos. Em tua volta, tudo se transformava, este mundo não era este mundo. Era outro, que eu não sei dizer. Vi nosso amor sob vários ângulos, e cheguei à conclusão: ainda és um mistério, minha Esfinge. Um doce mistério. E que fantasma para sempre não serei.