Dona Jovem

Minhas primeiras braçadas começaram no rio. E, junto com o rio, desci para o mar. Digo que tenho um pé no cangaço, outro na Europa. No cangaço, por parte da minha avó materna, Joventina, dona Jovem para os amigos. Cabocla pequena e forte, minha referência de mulher. O “Ferreira” vem daí, terras do Rio São Francisco, alto sertão pernambucano. A parte europeia, e não leve isso em conta, vem dos avós portugueses, pais do meu pai. Família Coura, sobrenome adotado por judeus que fugiram da Guerra e se instalaram em terras lusitanas. O Norton vem dele, que é um nome de origem nórdica. Quando menino, eu ia meninar na casa da minha avó Joventina. Como eu disse: pequenininha, magrinha, um fiapo de gente, mas forte como o rio que corria a seus pés. A casa da minha avó era uma casinha simples, mas tinha um belo e pequeno pomar no quintal: bananeiras, pés de limão, caju, laranja, manga, mamão e algumas galinhas. Nas férias, eu corria para lá.

Apesar da vida simples, eram três meses de felicidade. Eu podia meninar, ser menino. Que mulher, que caráter, que dignidade. Mesmo pequenininha e magrinha, batia café no pilão, batia roupa nas pedras do São Francisco e ainda tinha uma pequena roça. Às vezes, eu ia com ela: quartinha d’água na cabeça, uma bolsa de palha com rapadura e farinha numa mão, e a outra segurando a minha. O sol tisnava; de longe, víamos as pessoas levitarem no vapor da terra. Terra de meu Deus, de gente desvalida, esquecida na esquina do tempo. “De meu Deus” é modo de dizer. Onde estava Deus que não via aquilo? Terras de Macondo, de Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão. Uma das coisas que eu mais gostava era de ir à feira com ela, minha avó. No mercado, o cheiro de farinha, pinga e sabão bruto. Carne seca, feijão-verde, mel e tecido barato. Tudo junto tinha cheiro de vida, coisa bruta da terra. No caminho, vó deixava eu assistir aos cantadores de Cordel. Eu menino ficava encantado com aquelas histórias e aquela arte. Os matutos, sérios, prestavam atenção no cantador, mas vó, maravilhada, só prestava atenção em mim. A vida tem sua arte e sua própria tinta. Vó não era dos beijos, dos abraços, era das admirações. Ficava horas e horas me olhando, e eu, com vergonha, passeava os olhos pelo chão. Os cordéis eram os telejornais da época, e só traziam notícias ruins: “A mulher que fugiu de casa e deixou 10 filhos”; “O crime da fazenda e as 40 peixeiradas”; “O menino de duas cabeças” e alguma história de assombração; com uma narrativa fantástica e cuspe que não acabava mais.

À noite, minha avó desenrolava uma esteira na calçada e ia fumar cachimbo com Maria Baiana, sua amiga e confidente. Eu ficava por ali, ouvindo as duas falando do povo e olhando as estrelas daquele sertão. Silêncio danado, poucos postes de luz. De vez em quando um cachorro latia ao longe, fazendo eco naquela parte do universo. Eu gostava muito da minha avó, vivia na barra da saia dela; me sentia amado e seguro, por aquele pedacinho de gente. Mulher sem estudo, que carregava no lombo a força e a quase desesperança. Me esqueci de falar: a cidade era Petrolândia, perto de Paulo Afonso, a velha Petrolândia, que, por conta da construção de uma barragem, hoje agoniza embaixo d’água. Existe a nova Petrolândia, mas não conheço, e talvez não queira conhecer. Na velha Petrolândia está a parte boa da minha infância. É melhor deixar lá, como uma fotografia que eternizou o instante.

Certa vez, vi minha avó colocar o dedo no, digamos…, no cu da galinha. Perguntei o porquê, vó disse que era para saber se tinha ovo. Fiquei com aquilo na cabeça, e um belo dia eu mesmo resolvi fazer a inspeção. Mas vó flagrou. Flagrou mas não brigou nem bateu. Mas disse: “Faça isso, não, que nasce verruga no seu dedo”. Eu era menino mas não era besta. Se podia nascer no dedo, podia nascer noutro lugar, né não?, caso eu resolvesse meninar como nas histórias de José Lins do Rego? Dona Jovem teve forte influência sobre mim. Com ela aprendi o que são a grandeza e a beleza de uma mulher. Que, quem tem força e raça, é como vara de marmelo: entorta mas não quebra.