Gosto amargo

Por sorte, estimado Corvo Louco, tenho você por perto. Não se aborreça, milorde, deixe que você também seja confidente das minhas dores. Terás uma bela coleção. Coleção sem valor, eu sei, mas terás. Faz tempo que me convenci de que ninguém foge à sua verdade, idolatrado Pássaro. Para apagar, para esquecer a real realidade, todas as ações e atitudes são meras enganações, esfinges de flocos de neve. É brincar de enganar o que não se engana: a alma, o espírito, o coração ou um mísero espelho. É que as coisas pegam a gente de jeito; nos jogam no chão sem nenhuma piedade. Trituram e ainda jogam pelo ralo da nossa existência. Penso que eu estava no lugar certo na hora errada, grande Corvo. Pois eis que eu escuto, ao longe, a frase fatal, levando-me ao “nonada”. Na voz melancólica de Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial: “Onde quer que eu vá, o que quer que eu faça, sem você não tem graça”. E assim voltou tudo, o vivido e o por viver. O que foi sem ter sido. Ah, meu velho Pássaro, a dor é de quem sente. Você pensa que está tudo cimentado, empalhado e enterrado. E, no entanto, está tão vivo que dá para sentir o cheiro.

Não dá, meu elegante Corvo Louco. Não dá… A gente faz tudo, escreve, inventa novos mundos, novos horizontes,mas chega uma frase e põe tudo no caos: “Onde quer que eu vá, o que quer que eu faça, sem você não tem graça”. O sangue vira água, água com pólvora e absinto. Sua fortaleza desaba como uma simples batida de pestana. Você vira terra de ninguém, deserto inóspito, geleira perdida e flutuante. Assim são as paixões, as paixões definitivas: ou são engrandecedoras, nos dando o universo, ou são arrasadoras, fazendo-nos rastejar como pobres répteis. Fugir, como, não há. Ignorar, impossível. Só resta aceitar e amar no silêncio. Silêncio que grita. Gole em seco travando a alma. O gosto é amargo. Amarga é a ausência de quem se ama.