Lembro-me

Lembro-me quando descemos, e resolvemos caminhar pela praia. Fim de tarde, início de noite; aquela hora em que o hálito do mar está mais forte, exalando sexo. Lembro-me que estávamos de mãos dadas e pés descalços. Como numa procissão, os peixes nos acompanhavam, e cambalhotavam no ar, sob o reflexo da lua, mais parecendo artistas do Circo de Soleil. Lembro-me que, ao longe, tocava uma canção, uma canção do Ira: “Eu morreria por você/ Sem saber como sou capaz…” Lembro-me, muito bem, que você perguntou se eu morreria por você. Eu disse que não, mas que por você viveria.

Lembro-me que, num repente, você resolveu tomar banho. E correu para o mar. Agora eu tinha peixes bailarinos e uma sereia encantadora. Lembro-me que eu me sentei na areia, e fiquei a pensar em nossas vidas; quis entender o momento, qual era a mensagem, o que significava tudo aquilo. Procurei respostas no céu, mas nada vi, além de estrelas solitárias. Seria essa a mensagem? No fim, tudo é solidão? Lembro-me que você saiu da água, correndo. Atirou-se aos meus pés, e disse: “Eu não morreria por você. Porque morta já estou”. Fiquei lisonjeado com as suas palavras, com o seu ímpeto debaixo do frio. Mas, hoje, lembro-me que as estrelas estavam certas. No fim, só resta a solidão.

Norton Ferreira.