Mães. A crônica que eu não fiz
Um amigo pergunta-me se no Dia das Mães haverá crônica dedicada a elas. Não, meu camarada, não vai. Um texto, para o Dia das Mães, sempre corre o risco de sair piegas, adocicado, com palavras já desgastadas pelo tempo. Certeza que, além de falar da minha, falaria das mães de Glauber Rocha, Cazuza e Renato Russo, que, mais do que mães, são três mulheres admiráveis. De qualquer forma, mesmo que indiretamente, já que foi a trabalho, como redator publicitário há vinte e dois anos, já criei mais de 100 homenagens a elas; uma média de cinco anúncios a cada ano. Minha consciência está em paz. Em paz como profissional, mas não como cidadão.
Nós, publicitários da área de criação, temos por hábito olhar uma coisa e ver outra, suas correlações e outros significados; nascendo, daí, temas de campanhas e argumentos de vendas. E isso, mesmo sem querer, terminamos levando para a vida, para o dia a dia. Essa explicação, amado e nobre leitor, é para dizer que, ao fazer uma homenagem, eu não esqueceria, como cidadão, as mães do Nepal nem da mãe que sai com uma filha às seis da tarde, para vender algumas pamonhas. Como também não esqueceria a mãe da garotinha Nardoni, que eu esqueço o nome. Sinceramente, estimado leitor, gostaria de fazer algumas perguntas a ela: como é que se faz aquilo com um anjo e indefeso daqueles? O que pulsa, ou pulsava, no peito dessa mãe? São perguntas, apenas perguntas. Volto à senhora da pamonha, que pega na mão da filha e sai de bar em bar quase que implorando que lhe comprem alguma coisa. O “quase”, meu paciente leitor, é força de expressão. Porque, o que a boca não diz, os olhos esbravejam.
Não dá para ficar indiferente a uma situação dessas, ver uma mãe puxar pelo braço de uma criança de seis anos, e ir em busca do seu sustento. Merece meu respeito e minha admiração, essa brava lutadora. Não faria uma crônica se não falasse nela. Quando se diz que a mulher é uma leoa, é a mais pura das verdades. Mexa com tudo mas não mexa com a sua prole. Infelizmente, nós, filhos, não temos muito clara essa noção. Sempre admirei essa força que a mulher tem, essa tenacidade para enfrentar as adversidades da vida. De qualquer forma, comemore com tudo o que tem direito. Não tenha vergonha de enviar as mensagens mais adocicadas que você criar ou encontrar. Porque uma coisa é certa: mãe não enjoa nunca.