Madrepérola

Madrepérola morava numa casinha, junto com sua irmã Akasha e seu pai,
no pé de uma montanha, tal qual se vê nos romances, ornada de acácias
e jasmins. Já nos seus quinze anos, Madre, como era chamada, passava a
manhã ajudando o pai na criação das cabras e na fabricação de queijo. À tarde, ia brincar de teatro com Akasha, 13, que preferia lhe chamar
de Pérola. Às vezes brincavam: o pai chamava “Madre”, e a irmã
completava: “Pérola”. O pai ouvira esse nome, Madrepérola, uma única
vez. Gostou tanto a ponto de batizar sua primeira filha com ele. Além
de achar bonito, sentiu algo de forte e mágico, que com ele viria,
também, a força do mar. Naquele dia, Madre estava ensaiando, com o pai
e a irmã, uma peça criada por ela mesma, “O Tubarão Voador”.

Seu Arnóbio era o tubarão, um pai carinhoso e amigo das filhas, ficava
radiante com a veia artística de Madrepérola. “O Tubarão Voador” era
uma mistura de peça e musical. E cantavam: “Voa tubarão/És bonito e
tão esperto/Por que tudo é tão longe?/Por que tudo é tão perto?/Quanto
mais se corre nesta vida/Mais se entra num deserto/Traz um príncipe
para mim/Meu coração está aberto/. Nesta parte, batia um pouco de ciúmes em seu Arnóbio, que escondia para não demonstrar. Aos quinze anos, Madrepérola já sonhava com o seu príncipe, que ela só admitia em conversas com Akasha. “Queria me transformar numa grande mariposa, negra, com fios de ouro, a mais bela das mariposas, e dar uma volta no mundo; ver como é. Conhecer os rapazes e, quem sabe?, encontrar o meu príncipe”. Ao deitar-se, as duas rezavam, pediam com força e fé, que o milagre acontecesse. Certa manhã, ao acordar, Akasha não viu a irmã, que sempre se levantava depois. Deu uma desculpa ao pai, dizendo que Madre não estava bem, que iria ficar na cama; pediu que deixassem o quarto fechado, queria ficar no escuro.

Já na floresta, mas bem perto do que seria o Reino das Acácias, uma
grande mariposa negra desceu. Ao tocar o chão, voltou a ser
Madrepérola: uma moça bonita que parecia ter saído de um conto de
fadas. Um pouco assustada, seguiu um caminho qualquer. Diz-se que,
quando não se sabe aonde quer ir, qualquer caminho serve. Assim o fez.Mal começou a andar, eis que lhe aparece O Homem de Lata, do Mágico de
Oz, que lhe pergunta: “Minha senhora princesa, para que lado fica que
a terra de Oz? Me perdi da minha história, preciso voltar”. — Para lá,
depois daquele monte azul”, respondeu Madre. E seguiu olhando as árvores e ouvindo os pássaros; tinha mais curiosidade do que medo, e isso ajudava a seguir em frente. De repente lhe aparece Alice, do País das Maravilhas, perguntando para que lado ficava o buraco que ela havia entrado. “Siga em frente, e contorne aquele vulcão, é do lado de lá. Mas agora sou eu que pergunto: para que lado fica o Reino das Acácias?” - Não existe, minha querida; na vida, tudo é lenda. Nada disso aqui é realidade. Se você acreditar… Continue procurando -, disse Alice. — Boa sorte na sua história -. “Na sua também”, devolveu Madre. Já sem saber para onde ir, Madrepérola começou a andar sem direção, agora sentindo um pouco de medo.

Tentou voltar a ser mariposa, mas seu pedido não funcionou. O medo lhe tomou de vez. Escapou de três ataques: de um tigre, de um leão e de uma cobra. Já cansada, exclamou: “Mas onde fica isso?”. A águia, que estava no topo de uma árvore, respondeu: “Falta pouco, depois daquela elevação”. Madre se assustou, descobriu que os bichos entendiam suas palavras, e talvez por isso tenha escapado dos três ataques, quando clamou por Deus. Avistou uma pequena casa, que tinha vacas na frente e um riacho do lado.
Aproximou-se e pediu comida. A dona da casa lhe perguntou de onde
vinha e para onde ia. Madre respondeu que não sabia de onde vinha, mas
queria conhecer o Reino das Acácias. A senhora respondeu que não
existia, que outras pessoas passaram por ali, a procura desse reino, e
nunca mais voltaram. Madre arrepiou-se. Sentiu que havia algo de ruim naquela sua história.

Após almoçar, agradeceu à senhora, que disse: “Calma, minha filha, você tem que fazer o pagamento. Pegue aqueles três cestos de roupa e vá lavar. O riacho está bem aí”. E lá se foi Madrepérola, pagar pelo alimento que comeu. Exausta, depois de tudo, se despediu e seguiu seu caminho. De vez em quando fazia o pedido para voltar a ser mariposa, e seguir para casa. Estava morrendo de saudades de Akasha e do seu pai. Após três horas de caminhada, encontrou outra casa, onde pediu um pedaço de pão e café. Lhe deram, mas perguntaram se sabia cantar. Madre falou que sim. “Então cante, hoje é aniversário do nosso filho mais novo”.

Foram mais duas horas desperdiçadas por Madre, que, exausta, adormeceu. Ao acordar, lhe deram café e pão, mais uma vez. Mas só foi embora depois de dar banho em dez porcos. E nada de Reino das Acácias, começou a se convencer que esse reino não existia. Tomada pelo medo, cansaço e desespero, conseguiu subir numa pequena montanha. E gritou o mais alto que pode, implorando para voltar para casa. O encanto se desfez, e Madre só voltou a si no seu quarto, rodeada pelo pai e pela irmã. Não se lembrava de como voltou, de como conseguiu escapar da sua aventura. Akasha queria saber de tudo, e tudo perguntava de uma só vez: “Onde fostes? O que encontrastes? O que aprendestes?” — Aprendi que tudo na vida tem um preço. E que nem tudo se deve pedir a Deus. Ele pode dar.”