Mais que um desejo

Era para ser uma crônica de domingo, para que você lesse com a roupa de acordar, posto que já não é mais a mesma roupa quando você foi dormir. A roupa de acordar, além de ter o teu calor, tem todos os teus contornos e entornos; o teu cheiro com o teu suor da noite. Minhas letras nada são, sem isso. Ah, Zeus… Por que não me tiras esse resto de juízo? Ou farias melhor: por que não me levas de vez? Tens certeza de que me queres com a tua filha? Perdoa-me por duvidar.

Queria que você, minha menina, lesse, preguiçosamente, se espreguiçasse e virasse para o outro lado, e lesse novamente, com vagar, e visse o quanto eu sou louco. Não sei se sou louco porque te adoro ou se te adoro porque sou louco. E que bons pensamentos te habitassem, na manhã deste domingo, e que você pusesse, o travesseiro, entre as pernas, e dissesse, num silêncio só meu e seu: “Eu vou equalizar você… Numa frequência que só a gente sabe”.

Certeza que tens a cara de sono mais linda do mundo. Ah, minha Atena… Olhos de Hera… Cabelos de Afrodite, perdoa esse espírito errante, errante mas que só quer te ver feliz. Tanto, que não me contive, e eis-me aqui, escrevendo, agora. Mas não há de ser nada: caso você leia, com a roupa de dormir, nada impede que você releia com a roupa de acordar. E releia quantas vezes e onde quiser. As letras têm mais que um desejo. Têm uma paixão.

Norton Ferreira.