Mistério

Há um bom tempo, Corvo Louco, tenho isso para lhe contar. Esperei ter certeza que a minha cabeça estava boa. Mas veja: por três noites, uma em cada ano, me aparece um Sábio, que eu batizei de Kristin. Hora penso que foi sonho, hora penso que foi realidade. O Sábio aparece vestido como um monge. Tem bigodes largos e fala pausadamente. Nunca se senta. Fica suspenso no ar. A cena é sinistra e divina, ou divina e sinistra. Não sei. Eu respiro fundo e presto atenção. Dizia Kristin, da última vez, que desde o ano 1400 existia um Pergaminho com os segredos do amor, e que só eu poderia ir buscá-lo. Por que eu? “Precisas tomar umas lições”, assim respondeu o meu bom Kristin. Mas… ?????…………??????

O Pergaminho estava numa Fonte nos arredores de Roma, e que, até esses tempos, ninguém havia descoberto. O prazo estava se esgotando, e os escritos iriam desaparecer. Eu havia sido o escolhido para saber de tão raro e nobre segredo. Ponderei, disse que achava a operação complicada e impraticável. Escondia, assim, um certo receio daquela situação. Me disse, porém o bom Kristin: “Isso não é problema. Lhe transportarei para lá. Preste atenção na palavra “Deus”. Veja o que está escrito no núcleo dela”. Visualizei ‘dEUs’. E respondi: ‘EU’. “Muito bem”, respondeu o Sábio que para mim já era santo. “Eis aí a tua força. Concentre-se em Deus, e logo mais estaremos lá.

Me vi diante da Fonte, numa madrugada gelada, mas não vi o Pergaminho do Amor. “Não procures a verdade longe de ti. A verdade está no chão”, me disse o Sábio, um pouco irritado por tão fraca percepção. Aos meus pés estava o raro documento. Abri, meio temeroso. Li e reli. Não entendi direito mas fiz cara de quem havia entendido. “Agora vamos para o teu grande teste, pois o meu prazo também está acabando. Vais conquistar a Rainha Má, do Lago Insano”. E assim eu fui, meu paciente Pássaro. Ao chegarmos, a rainha mostrou-se solícita comigo; soltou pássaros e tudo o que era prisioneiro. Cantava e sorria, e dizia estar apaixonada por mim. Fiquei em transe, mas aguentei firme. O Sábio me chamou num canto, e disse: “Passastes no teste. A rainha gostou de ti”. Mas eu não fiz nada, mestre! “Eis aí a verdade e a razão”. Foi quando acordei, Corvo Louco, e, ao meu lado, num pedaço de papel, estava escrito isto aqui: “O amor não tem segredo. O ser humano é que faz mistério.”

Norton Ferreira.