Morre o circo, vai-se uma infância

O leão está faminto, atônito e abandonado. Sua juba já não ostenta o penteado digno de um rei. Das lembranças do picadeiro, o silêncio borra o sorriso do palhaço. O circo está fechando. E, com ele, arreia-se de vez a lona colorida da minha infância. A cada dia, a notícia: mais um circo fechou. Mais um circo tombou o mastro de uma bandeira que já não tremulava mais. Leões, macacos, girafas e elefantes estão sendo largados pelo caminho, e não sabem o que fazer. Como crianças abandonadas, olham para nós, implorando uma explicação; querendo mais que comida, querendo saber onde foi que a alegria errou. Pelas ruas, o palhaço gritava: “Ô raia o sol, suspende a lua…” Em coro respondíamos: ‘Olha o palhaço no meio da rua…’ “Ô raia o sol, suspende a lua…” ‘Olha o palhaço no meio da rua…’ “Hoje tem espetáculo?” ‘Tem, sim senhor…’ “O palhaço o que é?” ‘Ladrão de mulher’. “O palhaço o que é?” ‘Ladrão de mulher’. “Ô raia o sol…” Fazendo o coro, eu e uma turma de meninos ganhávamos os ingressos para assistir ao espetáculo. Normalmente era um desses circos mambembes, sem a lona de cima, que rodavam caçando algum dinheiro pelas cidades do interior. Hoje, aquele cenário me lembra o filme Central do Brasil.

Tive uma infância povoada de circo. Circo, cinema, futebol e HQs. Certa vez, sem dinheiro, pulei a cerca do Ringle Circus. Este, de fato, era um grande circo, com lindas trapezistas, Globo da Morte, atirador de facas, cachorros que jogavam bola, palhaços geniais, mágicos fantásticos e um apresentador, de fraque e cartola, que dizia: “Reeeeesspeitável público!…” Sem dinheiro, tive a “feliz” ideia de pular a cerca do circo, mas fui pego pelo segurança. Pedi para sair por ali mesmo, mas ele disse que não, que eu ia sair pela frente, para que eu tomasse uma vai dos que estavam lá fora, que era o que normalmente acontecia. Era o castigo do infrator. Era noite. No caminho da vaia, uma voz saiu de uma tenda: “O que foi?” ‘Peguei esse moleque pulando a cerca’, disse o segurança. “Traga ele aqui. Por que você pulou?” ‘Minha mãe não estava em casa, e eu estava sem dinheiro’, respondi. “Quer assistir?” ‘Quero’. “Então pendure esse fiteiro no pescoço e vá vender umas balas para mim”. O fiteiro era de madeira, um negócio em forma de parêntese, onde se colocam balas e bombons; que é posto na cintura com uma alça pendurada no pescoço. Pensei: ‘E agora, o que meus amigos vão dizer, me vendo com esse negócio pendurado, vendendo confeito?’ A vergonha não falou mais alto: eu queria entrar, e o circo me queria lá dentro. Terminado o espetáculo, fui prestar contas. “Só isso?” Vendi apenas um pirulito e uma caixinha de chiclete Adams. “Você pensa que eu não vi, você parado o tempo todo, assistindo ao espetáculo?” ‘A senhora estava linda. Era a mais bonita de todas elas’, respondi. Ganhei um beijo no rosto e a promessa: “Deixa pra lá. Enquanto o circo estiver aqui, você é meu convidado. Venha todos os dias.”