Na canoa de Rousseau

Por causa de algumas ideias, Rousseau foi obrigado a passar um tempo na ilha de Saint-Pierre. Rousseau era suíço, foi para a França ainda pequeno. É um dos pais do Iluminismo, e teve influência na Revolução Francesa, quando algumas de suas ideias foram adaptadas para atender os ideais do movimento. Graças ao filósofo tirei um peso da consciência. Dizia ele, Rousseau, que o homem nasce naturalmente bom; que já tem uma ligação natural com Deus. E que, portanto, não precisa de religião. Só por isso já fiquei amigo de Rousseau, posto que faz tempo que não entro numa igreja. E nessa de dizer que o homem já nasce naturalmente bom, Rousseau também dizia que o que estragava era a sociedade, com a sua cultura, valores, propriedade etc. De onde eu concluo, então, que, atos de bondade, por esse homem estragado, passam a ser lampejos. Surtos de bondade, podemos dizer assim. Menos do que qualquer outro animal.

Além de ter gostado da definição do homem, em relação a Deus, também gostei da forma que ele, Rousseau, usava uma canoa na ilha de Saint-Pierre. Sua mania era deitar-se no pequeno barco, desamarrar as cordas e deixar a embarcação ao sabor do vento. Ficava lá, de papo para cima, com suas ideias, e a embarcação à deriva. Gostei. Tanto, que criei meu barco mental. Mental, espiritual… Quando tudo está confuso, e quase sempre está, ainda bem, ou para enganar o tédio, desamarro as cordas, me deito nele, no “barco”, e não quero saber aonde vai dar. Chega de explicação para o que não tem explicação; de “verdades absolutas”, de hipocrisia, do obscurantismo que reina hoje em dia. Me rendo ao que disse, um dia, o meu bom Oscar Wilde: “Só para duas coisas não tem jeito: para a morte e para a estupidez.”

Norton Ferreira.