“Navegar é preciso”

Sempre gostei da beira do rio, da beira do cais e da beira do mar. É como se o meu espírito, vagabundeante e viajante, precisasse, sempre, de uma possibilidade; de sonhar com novas paragens. Possibilidade de voar e sair por aí, mundo afora, com asas de condor. Ou de papel. Partir para lugares nunca vistos… E, assim, ver um pouco mais de mim. Parado, no mesmo lugar, não me vejo. Vejo mas é pouco, são muitas as paredes invisíveis. É no outro que eu me vejo, e, quanto mais eu ver, mais me descubro, mais me conheço. Embora sabendo que, quando partir, nada saberei nem levarei. Saudade é um sentimento bom, mas é preciso sair, abrir espaço para a saudade entrar. Ninguém foge de si mesmo. No máximo arrodeamos um quarteirão da nossa existência. Quando vemos, estamos repetindo os mesmos gestos, seguindo nossas pegadas. O ser humano é um clichê repetido à exaustão.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Setenta anos antes de Cristo já dizia Pompeu, o general, segundo Plutarco, e não Fernando Pessoa, como pensam alguns. Pessoa fez o poema, e foi lá que Caetano bebeu. Seguir em frente é que é a jornada, para que o corpo não apodreça de vez. Não se rebola pedra sem subir à montanha. Sonho com outros mundos, mais por curiosidade do que em busca da felicidade. Como diria Drummond: “O que é ser feliz? O que eu queria ontem? O que eu quero hoje ou o que eu quero amanhã?” Meus monstros já estão incorporados, e só me fazem bem. São eles, meus monstros, que me mantêm vivo. Aprendemos que amor rima com dor, e nos esquecemos que é só uma rima. Amor não dói, amor que é amor corre em águas límpidas e claras. “Navegar é preciso.” Morrer de amor não é preciso.

Norton Ferreira.