O amor, não.

Ora, minha menina, minha consciência vive a pedir um livro sobre nós dois. Mas essa mesma consciência sabe que é impossível; eu não saberia onde colocar o ponto final. Considerando que você é eterna, não tem como. E, assim, vivo de recortes, de crônicas que pedem para existir. Agora, por exemplo, me sinto impulsionado a pedir por ti. Por tua felicidade, por tua beleza, pelo teu útero que dá a vida, agradecer pelo milagre que é você existir.

Bebi todos os teus gestos, respirei todos os teus movimentos e sorvi todos os teus poros. Tenho, nos arquivos da memória, as mais belas imagens que povoam a minha existência. Ah, minha menina, como foi bom ter enlouquecido; só uma mente alterada captaria tua beleza em toda a sua plenitude. Uma dessas imagens do meu acervo mental é você sentada, pernas cruzadas, cotovelo esquerdo na coxa direita e pulso no queixo; o braço direito descansando, também, na coxa esquerda. Entre os dedos, o cigarro. O cabelo grande levemente arriado entre as faces, o olhar doce e o sorriso de uma perversa Mona Lisa. Que bela imagem, minha menina. Compondo tudo isso, você estava de sandalinha rasteira, camiseta regata e saia longa, semitransparente. Simples, básica e linda. Como se tudo isso fosse pouco, ainda havia a sua inteligência e seu senso de humor. Seu riso contido sugerindo enigmas; sua risada larga embriagava os deuses.

Não tenho, minha menina, como contar, em livro, nossa bela história. Sobre o teu corpo caberia um volume inteiro; sobre o teu gozo, pelo menos dois. Não sei se eu contaria, pois me falta a veia poética de um Mallarmé: “O excesso de exatidão censura a tua vaga literatura”. Fomos loucos. Somos dois loucos. A nossa loucura é perversa e pervertida. O amor tem sua linguagem, e só nos resta obedecê-la. Menos que isso e vilipendiar o corpo, é sufocar a alma. Mesmo que eu passasse vinte anos, tal qual fez Proust, ao escrever Em Busca do Tempo Perdido, ainda me faltaria o ponto final. Por outro lado, fico triste por privar o mundo de tão bela história. Quem sabe, um dia, eu contarei? A vida também é feita de reticências. O amor, não. Você é meu ponto final.

Norton Ferreira.