O cego do castelo

Durante um bom tempo, mais passei por mim do que morei no meu corpo, esse castelo andante. Vivia como uma espécie de “o universo em expansão”. Eu sabia que estava indo,só não sabia para onde. Como ainda não sei, mas pelo menos sei onde estou. Dentro do meu castelo havia dois moradores: o Eu Cego e o Eu Que Enxergava. O Eu Cego era o que se movimentava mais, o Eu Que Enxergava era mais reflexivo, mais quieto, mais na dele. No movimento dentro do Castelo, o Eu Que Enxergava perdia feio para o outro, mas nunca se desesperou, apenas assistia a tudo, calado mas crítico. O Eu Cego torrava o tempo.

O Cego Que Enxergava tinha, também, seus momentos de predominância. Poucos, de vez em quando, mas tinha. Como os dois eram indissociáveis, havia esses momentos. O Eu Cego, do meu Castelo, estava em quase todas, conhecia quase todos os barzinhos, e o recreio da semana, em média, era de cinco dias. Esqueci-me de dizer que era O Cego Que Enxergava quem trabalhava para sustentar os bate-pernas do outro; e era quem alimentava a caldeira do aprendizado e do conhecimento. Um belo dia estava o Eu Cego se divertindo, quando bateu o pensamento: “O que é que eu estou fazendo aqui?” E começou a sentir saudades do Eu Que Enxergava: “Caramba! Deve estar lendo, aprendendo alguma coisa, bebendo algum tipo de cultura, e eu aqui, nessa perda total”.

Esta analogia, estimado leitor, com retoques de metáfora, mostra como eu resolvi fazer o caminho de volta para mim mesmo. Não eliminei O Cego do Castelo. Mas, hoje, quem manda absoluto é o Eu Que Enxergava. Esse reencontro comigo ajudou a priorizar o que de fato deve ser priorizado, e a dar importância ao que de fato é importante. Me livrou de muitos escritores sem livro e de cineastas sem filme. Em mesa de bar fui coautor de várias obras que ficaram na última mijada da noite. Dizer não é fazer. É melhor fazer e depois falar. Muitos talentos se perdem aí. O fazer é solitário, e requer a determinação de um caça suicida. Hoje, mais que nunca, o mundo nos puxa para as futilidades, rouba o que temos de mais precioso: o tempo. Como diz a canção, “É preciso estar atento e forte…”

Não há do que se arrepender. Continuo gostando das pessoas e delas não abro mão. Gosto de gente bacana e interessante; fujo de gente chata e mal resolvida. Descobri a beleza da simplicidade. Dizer que nada me enriqueceu seria canalhice, seria negar que nós somos a soma de tudo. Para o bem ou para o mal. E mais: faria tudo de novo. A questão é que o Eu Que Enxergava não largava do meu pé, sempre me lembrando que ali era uma fase, que eu precisava concretizar alguns sonhos, me concentrar, antes que virassem pesadelos e arrependimento. Hoje, cuido melhor da minha parte mundana, que é O Cego do Castelo, enquanto o Cego Que Enxergava está na luta insana. Como nada garante nada, pode ser uma luta quixotesca. Mas pelo menos lutei.