O ouro das palavras

Fui chamado pelo senhor rei. Na noite anterior ao encontro, não dormi. O que seria que o senhor rei queria comigo? Logo eu, um plebeu, que nem renda tinha para pagar impostos? Logo cedo, pela manhã, fui levado por seis soldados. Me puseram num belo cavalo, que, pela sua impaciência, não gostou da montaria. Fui anunciado, ao chegar, e logo um soldado, com vestes de guerreiro, me introduziu aos aposentos de Sua Majestade. Calado entrei, calado fiquei: “Sente-se, meu laborioso rapaz”. Intrigado e assustado, sentei-me num pequeno banco. Mas logo fui convidado a sentar-me numa grande poltrona de couro, de frente para ele. E ouvi: “A partir de agora, morrer ou continuar vivo só depende de você. Do castelo para fora, você nunca me viu, nunca falou comigo. Entendido?” — Sim, senhor!

“Sou infeliz no amor. Com todo o ouro, com todas as terras, com todas as pedras preciosas, com toda a vida nababesca que eu ofereço, nenhuma mulher me amou; nunca ocupei o coração de uma mulher. Esta é minha última tentativa de encontrar alguém que me ame. Soube que você escreve cartas de amor. Queria que as escrevesse por mim”. — Mas… “Não tem ‘mas”. Escute: se der certo, passarás a morar aqui, no castelo, com todas as regalias, e te deixo escolher uma bela esposa. Cheguei à conclusão que só as palavras chegam ao coração de uma mulher. O ouro mantém, mas é como ter um falso brilhante. Não fale, nas cartas, da minha riqueza nem do meu poder, isso todos sabem. Fale do meu coração; que o rei tem um coração amável e generoso. Que só quer a beleza e o amor de um outro coração. A que se encantar com as palavras, será a minha escolhida. Pode começar agora.” Escrevi, inicialmente, três cartas, que logo foram enviadas a três donzelas. Em linhas gerais, todas vieram mais ou menos com a mesma resposta:

“Senhor rei,

As palavras de Vossa Majestade tocaram fundo nesse humilde e pobre coração. Houve momentos que fui às lágrimas, senhor rei, com tão nobres e sensíveis sentimentos. Talvez, por um lapso, o que é perdoável, Vossa Nobreza esqueceu-se de falar de quanto é o dote. Suas palavras valem mais que ouro, eu sei, e o meu coração já está em chamas. Mas…, de quanto é o dote, meu belo e venerado rei? Acredite: amo-o desde então.”

O rei virou-se, e disse-me, olhando o sol que desmaiava pela janela: “De fato, meu jovem plebeu; veja a pouca importância que essa moça deu às palavras. Shakespeare em tudo acerta: não se deve jogar pérolas aos porcos.”

Norton Ferreira.