O poder de uma musa

Quem tem uma musa, e escreve, está condenado a escrever para sempre. Tudo está na musa: o sublime e o profano, o pecado e a salvação, a calmaria e o desassossego. A musa é a mulher que ultrapassou sua condição de mulher no coração de um homem; virou deusa, com aura de eternitude e adoração. Musa não se escolhe, acontece: a decisão vem de outras esferas, posto que são decisões divinas. É possível ter mais de uma musa? Pode ser, mas não por razões necessariamente iguais, e não acredito que passe de duas, pois estreito é o caminho do coração. Como é um ser muito especial, pode-se atravessar uma vida e não acontecer. Cada uma tem sua força, seu poder, seu encanto e seu mistério. A adoração por uma musa ultrapassa qualquer explicação. Por mais que se explique, sempre ficará algo por dizer, e que precisa ser exaltado. Por isso essa adoração sem fim; como um choro baixinho que se escuta no fundo de uma catedral.

Uma musa precisa ter o encanto das ninfas e a beleza das bruxas de Saturno; um querer de não querer e um ficar querendo ficar. Tem consciência do seu poder e da sua importância no coração de um homem. E cuida. O homem que não tem uma musa não pode dizer que já viveu. Sem essa experiência, sua existência continuará na incompletude, vagante no pó da existência. Só as musas nos permitem dizer coisas que, em outros contextos, seriam absurdas, indizíveis. Escrever para a musa é pular para quebrar o pescoço. Se não quebrar, de nada valerá o escrito. São letras quase, e quase não é nada. Ademais, o quase é uma ofensa para ela. Musa não abre mão de nada. Quer tudo. Está no seu direito. Tem poder e é eterna.

Norton Ferreira.