O poder de uma musa

Quem tem uma musa, e escreve, está condenado a escrever para sempre. Tudo está na musa: o sublime e o profano, o pecado e a salvação. A musa é a mulher que ultrapassou sua condição de mulher no coração de um homem; virou deusa. Musa não se escolhe, acontece. É possível ter mais de uma musa? Pode ser, mas não por razões necessariamente iguais. Cada uma tem sua força, seu poder, seu encanto e o seu mistério. A adoração por uma musa ultrapassa qualquer explicação. Por mais que se explique, sempre ficará algo por dizer, e que precisa ser exaltado. Por isso essa adoração sem fim; como um choro baixinho que se escuta no fundo de uma catedral. Para ostentar essa condição de musa é preciso ter a malícia de uma Eva e outros predicados.

Uma musa precisa ter a fortaleza de uma Joana D’Arc , o encanto e a beleza das bruxas de Saturno. O homem que não tem uma musa não pode dizer que já viveu. Sem essa experiência, sua existência continuará na incompletude. Só as musas nos permitem dizer coisas que, em outros contextos, seriam absurdas, indizíveis. Escrever para a musa é pular para quebrar o pescoço. Se não quebrar, de nada valerá o escrito. São letras quase, e quase não é nada. Ademais, o quase é uma ofensa para ela. Musa não abre mão de nada. Quer tudo. Está no seu direito. E tem poder

Norton Ferreira.