Aqui
Gostava de passarinhos, chão molhado, livros, cheirinho de roupa lavada e filmes noir. Gostava da pequena casa, agora com a ausência dela; uma pequena chácara no meio do silêncio preenchido por bem-te-vis sopranos e jasmins do Nepal. Sentia-se protegido, estar na casa era como estar nos braços da mulher amada. Na parede, o retrato daquela que foi a sua grande paixão. Em torno do amor giram satélites, que piscam nossas lembranças. Não queria corrigir erros, pelo contrário: eram eles, os erros, que também mostravam os acertos. Gostava de se lembrar das despedidas, e delirava ao se lembrar dos reencontros.
Gostava de andar na chuva, daquele cheiro de mato verde. Do beijo na virilha dela, doce como sapoti; da vagina feliz em soluços; do jeito dela subir, do jeito dela descer; do jeito dela dizer… “Morri”. Quando se deu conta, era a hora do jantar. Pôs a mesa para dois, com a foto dela do outro lado, a lhe fazer companhia. E disse, para ela, olhando a fotografia: “Estamos presos pelo destino. Jamais alguém sentará no seu lugar.” A campainha tocou, foi atender. E de nada mais se lembra… A não ser de um púbis enroscado, que pressionava sua perna esquerda, e de uma voz que dizia baixinho, sobre seu peito: “Não se mexa. Deixe-me… Deeiiixe-me… Aquiii.”
Norton Ferreira.