Pecado nas estrelas

Gosto do Arrebol, aquela hora em que o sol se avermelha lá no horizonte; o cair da tarde finda e linda. Quando garoto, nas férias corria para a pequena cidade onde morava minha avó; beira do rio São Francisco, rio de belas histórias e lendas fantásticas. Ao cair da tarde, corria para suas margens, para ouvir o seu silêncio e me encharcar daquela poesia divina, que era o Arrebol. Como companhia, algumas lavadeiras, passarinhos beiradeiros e saltitantes. Um belo dia, olho de lado e vejo outra poesia divina: uma Gabriela, de cravo-e-canela, que acabara de chegar às margens do rio. Linda como fantasia de menino.

Minha Gabriela, batismo que eu dei, tirou o vestido de chita, entrou de mansinho na água morna e começou a se banhar. E nadava e nadava, para lá e para cá, para cá e para lá. Parava de vez em quando. Ficava em pé e espremia os cabelos. Voltava a nadar e ficava: para lá e para cá, para cá e para lá. Eu, nessas alturas, já me sentia um camaleão, tentando mudar de cor e me incorporar à paisagem, para que ela não me visse. Foi assim, três dias na primeira semana. Meu Arrebol ganhava novas cores, novos matizes. Mas a minha Gabriela sumiu. “Pecado é provocar desejo e renunciar”.

Eu gostava, dia de feira, de passear no mercado, com a minha avó. Parei num pequeno box, e fiquei admirando uma Carranca, escultura de madeira, artesanato da região. Quando ouvi uma voz, que vinha lá de dentro: “Menino do rio, há quanto tempo?!… Era ela, a deusa do rio. A minha fantasia, linda e irreal como um sonho bom. Fiquei parado, sem saber o que dizer. Aquilo seria real ou seria uma daquelas lendas que habitam aquele universo? “Trezentos metros para a direita, na curva do rio”, disse-me ela. Fui. Toda idade é medrosa e destemida.

O Arrebol estava lá, as lavadeiras também. No primeiro dia, nada. No segundo chegou ela. Eu lá, sentado numa pedra, numa pequena elevação. Pensamentos confusos, pensamentos de menino. Será que é uma assombração? O São Francisco tem lá suas histórias; e ela nadava e nadava, para lá e para cá, para cá e para lá. O Arrebol encerrou seu espetáculo. O show, agora, era da lua, que deixava as águas cor de prata, prata translúcida espelhada. E ela lá, naquele espelho da natureza, para lá e para cá, para cá e para lá. Apesar do reflexo da lua, só dava para ver o vulto, que sumiu. Olhei, olhei…, nada. Silêncio danado. De repente alguém bateu nas minhas costas, e disse: “Vem, menino. Vem pecar nas estrelas.”

Norton Ferreira.