Quando os deuses estão de plantão

Um barzinho intimista, gente bacana e descolada. No palco, rolava uma banda cover do Los Hermanos. Em frente à sua mesa, três moças e um rapaz. Percebeu que a garota que estava de frente para o sujeito, volta e meia, disfarçadamente, lhe olhava. Passeava o pescoço…, e olhava. As duas amigas da moça perceberam, e de vez quando olhavam na direção do rapaz, que não deixava seus amigos perceberem o que estava acontecendo. Um dos amigos do “paquerado” percebeu, e disse: “Essa morena aí da frente não tira os olhos de você”. ‘Você não viu nada. Desencane e deixe comigo’, respondeu.

Experiente, o “paquerado” anotou seu telefone num guardanapo, e pôs no bolso. De repente, as duas amigas foram ao banheiro. Rapidamente o “paquerado” foi lá, e pegou as duas na porta do toalete: “Entregue isso à sua amiga”, disse a uma delas, passando o tal guardanapo onde estava seu telefone: “Mas não pode. Ela noiva daquele rapaz que está de frente para ela, lá na mesa”. Ficou sem jeito. Voltou para sua mesa, e ficou remoendo, tentando entender aquela situação. Sentiu-se usado. E pensou: como eu seu tolo!…” Para o universo não existem atalhos. Certos fogos acendem-se, primeiro, nos céus. E não há como apagá-los.

De vez em quando vinham uns risinhos, lá da mesa. E os olhares. Cumplicidades e malícias de mulheres. Nessas horas, de nada adiantava socorrer-se com os filósofos; achar a frase que definisse, bem, aquela situação. Mas lembrou-se de um velho ditado, um clichê que corria na sua adolescência: “Um homem é um homem, e um rato é um rato”. Era o que tinha para o inferno que se apresentava. Às duas da manhã, já tinham ido embora seus amigos e as duas amigas do casal. E ele lá, na mesa, bravamente, como um guerreiro que não desiste da missão: viver ou morrer. E que se danasse o mundo. O casal também: lá, mas, ainda, um de frente para o outro. De repente o “noivo” levantou-se, e foi ao balcão resolver alguma coisa. Como uma águia, o “paquerado” deu o mergulho fatal. Levantou-se e foi até à mesa, e disse para ela: “Você tem dez minutos para ser feliz para sempre”. ‘Me espere uma hora’, foi o que ouviu. Alguns dos presentes assistiram a cena. O casal foi embora. E ele esperou. E ela veio. E já chegou dizendo: “Não quero os dez minutos. Você tem quatro horas para me fazer feliz para sempre”. E, assim, os deuses acabaram seu plantão. E foram dormir. Os deuses.

Norton Ferreira.

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