Náufrago
Lembro-me, bem, do dia em que Talita chegou e perguntou como eu queria o seu cabelo:
── Com tranças, rabo-de-cavalo ou solto como uma Sereia?
“Os três”, respondi.
E ela veio com um lenço amarelo cor de ouro, grandes argolas e batom vermelho. Perguntei:
“Minha linda cigana, de onde vens?”
── Venho do Norte da Espanha; fui enviada para ler o teu destino, e se terás felicidade.
Dei a mão direita, e ouvi:
── Tens em tua vida uma mulher alta, morena, cabelos longos e olhar de mulher árabe. Neste momento usa um par de argolas grandes, que é louca por ti ──, e caímos numa grande risada, num abraço forte e as lágrimas rolaram. Nada mais dissemos. As lágrimas disseram por nós.
Talita tinha as sobrancelhas naturais e uma morenice que vestia um corpo parecido vestido de céu. Ou de inferno. Não sei. Descendência árabe; olhos de serpente. Mas tinha porte de espanhola, altura de espanhola, e gostava, também, de dança flamenca. Seu sorriso era azul, e sua boca era…, como eu posso dizer?… Era oceânica. Oceânica demais. Não tinha como não mergulhar. Fundo. Quem ama naufraga.
Norton Ferreira.
