Templo
Pergunto-me, às vezes, por que não nasci espelho. Mas ontem acordei espelho, e vi teu corpo. Ah, moça, teu corpo é meu templo, que eu adoro em silêncio. Mas como no silêncio está a paz?, se é no silêncio onde está o meu desassossego? Ontem me soprou o vento bom, que vinha dos lados da Montanha Azul. No ar, desenhava o teu nome, codinome Paixão. Se eu pudesse, dividiria a alma em três: uma para te escrever, outra para te esperar, e a terceira só para te amar. Uma alma só já não basta. Fizeste-me múltiplo, fizeste-me vários, ensinaste-me a arte de amar.
São muitos, os redemoinhos, que varrem aqui dentro.. Você é maior que maior; meus dragões não cabem em si, e levitam no ar. Ah, moça, tens a beleza das serpentes do deserto, e me puxas para o sol escaldante, o sol da espera. Mas nada me agonia. Sei que, no meio da tempestade, há sempre um vento bom. Mas eu estava dizendo: ontem acordei espelho, e te vi nua. E digo: te adoro a começar pelos pequenos defeitos, que são charmes para mim. E o charme, maior, foi te ver puxar os cabelos para trás e prender a presilha na boca. Linda. Tão bela que virei estilhaços. Ah, moça…, teu corpo é meu templo.. E minha morada.
Norton Ferreira.
