Tie-break

Há a beleza que se vê e a beleza por se descobrir. Claudinha, vamos chamá-la assim, tinha as duas. A beleza interior de uma mulher é um emaranhado de sutilezas; é preciso conhecer um pouco de artes plásticas, poesia, música, psicologia e sacanagem. História Universal também conta, pois pode se estar diante de uma Rainha Elisabeth e não perceber. Conheci-a num dia de chuva, ela voltando do treino de uma seleção de vôlei da qual ela fazia parte. Shortinho, rabo-de-cavalo e um sorriso de panfleto de clínica dentária. Tinha vários atributos, um deles era tomar todas. Mais uma vez o acaso me abraçou, e disse: é sua. Por isso entrego tudo a ele, o acaso. Deixei o carro trocando o óleo, enquanto ia ao banco. Foi quando um carro passou e me deu um banho sem dó nem piedade. Claudinha havia acabado de descer do carro dela, e viu meu constrangimento. Aproximou-se e disse: “Ih, cara. Você vai ter que trocar de roupa”. Falei que sim, esperaria a troca de óleo do meu carro. “Eu posso te levar e trazer. Tem algum problema?” Falei que sim, a namorada ficou dormindo. Que ela não se preocupasse. “Então vá me ver jogar sábado à noite, no ginásio Tal. Mas vá sem namorada.”

A natureza é sábia: até hoje não entendo como uma mulher com um metro e setenta e oito consegue se enroscar no peito de um homem, mesmo eu tendo 1,82. Cabe que parece uma criança. Fui ao jogo, e fiquei lá no meio da multidão. Pensei: ‘Quero ver se ela se lembra e se vai me descobrir. No esquenta, ela já me descobriu. E apontou com o dedo indicador, como quem diz: “Você, não saia daí”. E assim eu fiz. Pena que ela perdeu o jogo, mas abriu um sorriso quando se aproximou de mim. “Está de carro?” Estou, sim. “Vou com você. Deixei o meu”. Ainda nervosa com a derrota, falava pelos cotovelos. E eu só ouvindo, mas em dúvida para onde me dirigir. Foi quando perguntei: ‘Vamos para onde?’ “Só não me leve para casa”. Já instalados numa suíte, o som rolava e, antes de tomar banho, Claudinha tomou quatro tequilas e duas doses de Amarula. Fiquei no whiski. Voltou do banho, abriu uma latinha de cerveja, depois ficou no whiski. Isso sem grandes sinais de que havia bebido. Fazia Direito, e era louca por cinema. Uma grande mulher: linda, culta, educada e despudoradamente atrevida. Como ela estava há dois meses sem sexo, o jogo foi duro. Foi para o tie- break.