Alexandre, o Uber

Confesso que fiquei extremamente constrangido quando notei que Alexandre, o Uber, estava descendo do modesto Corsa Classic de cor indefinida e se encaminhando para a porta do passageiro para abri-la pra mim. Devo ter ficado visivelmente desconsertado com o gesto do cara.

Agradeci a gentileza e entrei no carro. “As balas e a água estão no banco de trás. A internet está roteada. O ar-condicionado está bom para você? E a música? Posso colocar outra lista do Spotify”, informou.

Recusei as balas e a água. O ar-condicionado estava ótimo e a música também. Tocava algo que lembrava as faixas da 94 FM. MPB para pessoas de bom gosto, que não é o meu caso necessariamente.

Alexandre tomou a iniciativa no diálogo. “Gosto de tratar bem os meus clientes. É possível ser um Uber cinco estrelas em um carro popular”, disse com bom humor e acrescentando um R a mais ao fim de palavra terminada com a consoante. “Paulista de Guarulhos. Corintiano. Maloqueiro”, antecipou-se para explicar o sotaque carregado.

Alexandre fez comentários sobre o trânsito. Perguntei há quanto tempo ele trabalhava com o Uber (quatro meses) e questionei se ele sempre abria a porta para os passageiros. Ainda não havia superado isso.

“Claro”, respondeu. “Aqui em Natal vocês se acostumaram a ser mal atendidos. Sou um prestador de serviço. Tenho que tratar bem os meus clientes. Às vezes parece estranho, muitos homens ficam me olhando estranho quando desço para abrir a porta. As mulheres gostam mais”.

Alexandre não tá errado. Tirando dois ou três lugares, é difícil mesmo encontrar bons atendimentos em Natal. Na maioria dos lugares, parece que é um favor estar ali.

O nosso Uber da vez tá totalmente certo, na real. Cheguei a essa conclusão ainda no carro, quando ele se negou a me deixar fora do Natal Shopping e estacionou na porta do elevador. “Fica à direita”, apontou.

A corrida foi curta. Menos de 10 minutos. Conversamos pouco. Alexandre disse que a família dele é potiguar, do interior, mas ele foi criado em São Paulo. Voltou ao estado porque “as coisas tavam ruins por lá”.

Ele contava isso enquanto descia do carro. Já ia saindo quando voltei para perguntar de qual interior ele era. Gente do interior tem dessas coisas. “Minha vó é de Nova Cruz. Conhece?”.

Mais que explicada a origem de tamanha gentileza e educação, tá no nosso sangue novacruzense!

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