Não há amor na linha 31

O céu alaranjado denuncia o fim de tarde na capital do sol. Faz calor e o ônibus está parcialmente lotado quando estaciona na parada do Setor I da UFRN.

Entro e ocupo o último assento do lado esquerdo — mesmo lado do motorista para que não restem dúvidas sobre o referencial adotado. As duas fileiras de cadeiras antes de mim estão vazias.

Gosto de sentar no fim do busão para ter uma visão completa do veículo. Ficar de olho em tudo que acontece e, vez por outra, ouvir sem querer uma história contada em voz alta. Mas isso não vem ao caso agora.

Duas paradas adiante, um casal pede parada. Homem e mulher. Minha idade mais ou menos. Eles dão “boa tarde” ao motorista entre gargalhadas. Me vejo em uma cena de uma dessas comédias românticas americanas.

Nada contra, diga-se. “O melhor amigo da noiva” é ótimo. Recomendo!

O céu vai aos poucos mudando de tonalidade. Uma espécie de ballet entre os últimos raios solares que insistem em vencer a barreira da atmosfera.

O casal senta em uma das fileiras vazias em minha frente. Uma fila nos separa. Estou sozinho, com a mochila no colo.

O homem e a moça estão alheios ao que acontece dentro e fora do ônibus. Eles trocam olhares quentes, como o ar vindo do asfalto da Roberto Freire. Ainda inclino o corpo e apoio a cabeça no costado do banco da frente para tentar ouvir o diálogo entre os dois. Sem sucesso.

Ambos riem. Um riso despreocupado. De quem apenas agradece ter um ao outro e nada mais é necessário.

Ela interrompe o riso dele com um beijo. Um selinho um pouco mais demorado. Ele retribui repousando a cabeça no ombro dela. E os dois saculejam juntos na trepidação causada pelo contato entre o pneu e o solo irregular.

Nenhum reclama quando o motorista sonega um quebra-mola e faz com que a cabeça dele se choque contra o queixo dela. Acham graça.

Eu componho a cena com um sorriso meio bobo vendo de camarote tudo aquilo. Respiro fundo e chego a sentir um calorzinho no coração.

A saudade de mozão aperta nesse momento. Confesso que cheguei a ficar com os olhos marejados e invejar aquele casal.

Fecho os olhos por uns cinco segundos para desfrutar o momento. É o suficiente pra ouvir um coro de vozes enfurecidas: “vai descer, motorista filha da puta!”.

Até o casal entrou na onda. Não há amor que resista à um motorista da Conceição.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.