What Design Can Do — Day 1

Que o design ganha relevância como fator de mudanças e diferenciação em diversas áreas, nós já lemos bastante. Mas conseguir ver o quão o design tem poder na prática, com profissionais inspiradores e engajados no que fazem nos motiva a pensar além e a refletir nossas ações.

Logo no primeiro dia de WDCD 16, já deu pra perceber como o design é uma união de fatores. A percepção básica de que design = forma + função se mantém, porém em diversas outras formas e intensidades que vão das aplicações e questionamentos mais simples aos mais aprofundados.

O poder do design é cada vez mais explorado e envolvido em muitas frentes, e em todas elas o foco não é mais em criar produtos, e sim experiências.

Muito já se fala de não mais entregar produtos, e sim experiências. Marcas se reposicionam como facilitadores de experiências provendo justamente novos serviços, pois assim a recorrência de relação entre marca e usuário é maior, assim como a Apple fez ao lançar o iPhone. Um produto que passou a prover serviços como iTunes e App Store, e consequentemente novas experiências.

Sustentabilidade

Como bem disse Marko Brajovic no WDCD:

“Sustentabilidade não é produzir 5.000 cadeiras ecologicamente corretas, pois já existem muitas e não precisamos de tantas novas cadeiras. Somos designers, não decoradores. Nós projetamos todos os nossos produtos e pensamos em todos os materiais que podemos utilizar, de forma consciente e contextual.”

Seus trabalhos do Atelier Marko Brajovic baseados em behaviorism e biomimética resultam em uma qualidade de entrega em design de altíssimo nível, refinado e com propósito.

É preciso mais do que nunca pensar em experiências que se preocupam com sustentabilidade de toda uma cadeia de produção, e isso a economia circular aborda bem. Todo um ecossistema é responsável pelo seu impacto ambiental e social, por toda pré e pós produção, bem como o descarte e reuso de materiais. Daqui em diante, as pessoas não vão mais comprar a sua ideia e levantar a sua bandeira, se a causa não for por algo maior, se o propósito não for real. Elas se preocupam com todo o ecossistema e o impacto que ela e a marca causam no âmbito social e ambiental, e a Patagônia faz isso muito bem por exemplo. Eles acreditam que cada cliente pode contribuir com o propósito da marca a nível social e ambiental, promovendo a preservação ambiental com a experiência de esportes radicais ao ar livre. Mais do que isso, dedicam tempo e verba para projetos de reservas naturais, pois sabem que de uma forma ou outra, a produção têxtil polui em algum nível e eles têm responsabilidade pelo que produzem, e conseguem inclusive dar uma garantia vitalícia dos seus produtos, pois acreditam que vale muito mais consertar do que descartar e produzir algo novo. Isso é um propósito verdadeiro, e ser sustentável.

Propósito

Falei e destaquei propósito algumas vezes já né? As marcas tentam há muito tempo construir um propósito forte e "autêntico" o bastante para criar empatia com seus públicos. E como vender um mundo saudável, de sonhos, arco-íris e unicórnios se toda sua linha de produção contamina o meio ambiente de uma região? Marcas precisam entender que há valores agregados em um propósito verdadeiro, em que a empatia seja plena sem grandes esforços. Isso envolve inclusive os conceitos de câmbio social. Vide o case da TOMS, One for One, onde a cada um produto comprado, outro é doado para quem realmente precisa.

É responder perguntas que já cansamos de ouvir: "O que te motiva a acordar todo dia?" — e conseguir tangibilizar para toda uma cadeia de produção e para seu público-alvo. Não é fácil, mas necessário. E quem sabe em um futuro próximo, se torne uma premissa :)

Propósito é a missão, mas também processo e função.

Gentileza gera gentileza.

Propósito se não for autêntico, não cola, não dura e nem expande.
O top-chef Rodrigo Oliveira foi muito humilde e categórico em relatar o sucesso de seu famoso e aclamado restaurante Mocotó, em uma abordagem Design with Food. Toda sua história é verdadeira. Veio de muita luta e vontade de seu pai em ter um restaurante típico nordestino em São Paulo, especificamente comida sergipana. E todo seu sucesso está muito em enraizado em muitos valores.

“Em terras tão secas, as raízes são as mais profundas”

Muitos perguntam-no, qual a receita do sucesso. Como algo popular, caseiro, de ingredientes simples e acessível pode criar o desejo, ser reconhecido internacionalmente e ter o sucesso que tem?

Pra começar, sua história é verdadeira como seus valores. Por ser comida nordestina, precisou tratar de tudo sem preconceito, sem ser caricato e principalmente, sem ser temático. A dificuldade do povo nordestino o leva a fazer muito com pouco. Seu tempo dedicado a algo o faz criar pratos incríveis com o básico. Toda sua preocupação em servir e fazer o bem está presente também em todo seu ecossistema de mais de 160 fornecedores e 100 funcionários. O que e como fazem é sim preocupação e responsabilidade da empresa — impacto ambiental, e isso se reflete em seus funcionários que a empresa inclusive auxilia na formação dos mesmos — impacto social.

A simplicidade do povo, refletida no atendimento do lugar, traz empatia com todos pelo mesmo nível, na qual não importa quem seja, todos são tratados da mesma forma. Isso e outros pequenos detalhes fazem com que o restaurante promova um vínculo com as pessoas da vizinhança e criando desejo de pertencer e participar, e isso acaba por valorizar todo o entorno. É uma experiência totalmente humanizada, com muitos vínculos pessoais envolvidos no trabalho que é de pura dedicação, amor e prazer em servir.

“Para mim, a gastronomia deve ser inclusiva, não exclusiva”

É muito difícil conseguir replicar essa identidade e atingir tal nível de serviço humanizado com valores tão bem enraizados e construídos. É todo um ecossistema em longa e constante construção em prol dessa entrega pura e verdadeira. Você até consegue desenvolver um projeto semelhante, mas o que vai diferenciar você do Mocotó é o engajamento individual e social com seus fornecedores e colaboradores. E isso faz toda diferença.

Contexto

Como o design pode engajar e valorizar o entorno? Mais do que isso, ser a solução de problemas com urbanismo, economia, turismo etc? Jan Knikker apresentou o projeto do Markthal Rotterdam, o maior mercado coberto da Holanda.

Mais do que redesenhar um mercado central da cidade, considerou e criou um propósito relevante para todo seu entorno. Gerou uma demanda comercial, trazendo mercado aberto e supermercado, movimentando a economia local. Potencializou o individualismo ao proporcionar espaços para restaurantes seguirem com suas próprias identidades. Tudo isso envolto por um conjunto residencial ao seu redor. Dá para imaginar algo assim? Todo o projeto conta com grande desempenho sustentável, projetado nos mínimos detalhes, que envolve o uso consciente de água, energia, resíduos e etc.

O fluxo de carga do mercado e supermercado são do lado externo e de modo subterrâneo, afim de não incomodar o conjunto residencial com ruídos e cheiros de comida nas madrugadas de carregamento. Parece óbvio, mas geralmente não existe um cuidado em todo um ecossistema, não se olha e pesquisa o impacto social e ambiental. Os subsolos são estacionamentos gigantes para suprir o volume de visitantes, com lugares para bikes e também dispõe de dispensas para os moradores.

Esse projeto é um grande exemplo de relevância de contexto e como o design pode trabalhar e mudar comportamentos, alterar densidades demográficas, economia, fluxos, engajamentos sociais e tantos outros atributos e valores que o Mercado Central de fato mudou e criou.

Esse post foi um desdobramento de assuntos de maior relevância do primeiro dia de What Design Can Do edição São Paulo 2016, com a visão, entendimento e experiência que tenho com o design desde o início da minha carreira.