Americanahhhh


Embora eu já tivesse, sim, ouvido falar da Chimamanda Ngozi Adichie quando meu amorzinho estava lendo Hibisco Roxo, confesso que só fui prestar mais atenção nela quando a Rainha Beyoncé usou um sample da fala no TED dela na música Flawless (PUTA MÚSICA). Logo a fala no TED virou um livrinho, e pouco tempo depois, olhando a lista dos melhores livros de 2014, me dei conta de que era ela a autora de “Americanah”. (Por sinal, a definição da Chimamanda de feminismo é talvez a mais clara já produzida por alguém, no estilo, mais claro do que isso só desenhando. “Feminista: a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.”)

A trama do livro é relativamente simples: Ifemelu, uma mulher nigeriana que mora há quase 15 anos nos Estados Unidos, onde foi fazer faculdade em uma época que o couro tava comendo no seu país natal, resolve voltar à Nigeria. Os capítulos se intercalam entre a vida dela na Nigéria antes de ir pros EUA, sua história de amor com Obinze (que também tenta a sorte imigrando pra Inglaterra) e os eventos do presente, com sua decisão de retornar e a retomada das suas relações na sua terra de origem.

Nos Estados Unidos, ela come o pão que o diabo amassou até se estabilizar, e eventualmente consegue um green card e se torna uma blogueira de relativo sucesso. Tendo se “descoberto negra”, Ifemelu escreve sobre relações raciais, baseada nas suas experiências cotidianas. Seu foco é a diferença entre os negros americanos e os negros não-americanos — embora o racismo seja evidente em ambas as situações, ele se manifesta de formas diferentes, e até as vezes muito mais extremas, quando a equação da “origem” é colocada em questão.

Obinze também come o pão que o diabo amassou em Londres, talvez num nível pior que o da própria Ifemelu, e também acaba voltando pra Nigéria, que se tornou um lugar muito diferente do que era antes. Lá, ele opta por determinados “atalhos” para ascender socialmente, o que revela algumas facetas interessantes a respeito das hierarquias sociais da Lagos atual.

Eu sei um pouco do que é o sentimento de ser estrangeiro e estar num lugar totalmente novo, onde não se conhece direito os códigos, e onde as pessoas tendem a te olhar de cima pra baixo por conta da tua aparência, sotaque, ou cor do passaporte. Pra mim a descrição desse tipo de experiência e de sentimento, tanto no que se refere à Ifemelu nos Estados Unidos como Obinze na Inglaterra, foi feita com maestria. Eu imagino que a própria Chimamanda tenha passado por algumas daquelas situações, já que sua vida tem várias semelhanças com a trajetória da personagem, e achei extraordinário o jeito como ela consegue descrever o estranhamento e depois, no movimento contrário, estranhar o familiar. Ifemelu não é mais a mesma pessoa quando volta para o seu país natal, e de certa forma, está irremediavelmente impregnada, no seu modo de pensar, de ser, de agir, de aspectos da cultura americana que a distinguem dos amigos que reencontra na Nigéria, e principalmente do próprio Obinze (que descobre seu blog e pensa, quem é essa pessoa, meu deus?) — ela virou, em suma, uma Americanah.

Li pouca literatura africana até hoje e Chimamanda foi minha primeira autora nigeriana. Meu interesse pela Nigéria até o presente havia sido basicamente guiado por Nollywood (assisti pouca coisa, e sempre no Youtube) e ultimamente, pelas barbaridades do Boko Haram. Uma amiga da época do meu mestrado, a Pilar Uriarte, escreveu sua tese de doutorado sobre a Nigéria — mais especificamente, sobre imigração da Nigéria e Gana para a América do Sul, e ainda mais espeficamente, sobre jovens que viajam clandestinamente em navios de carga, e fiquei morrendo de vontade de ler a tese depois de ler Americanah, embora eu tenha certeza de que a realidade tratada pela Pilar seja totalmente livre do romantismo apresentado por Chimamanda.

Passagem favorita do livro: quando Ifemelu decide parar de “forçar” um sotaque americano, ou melhor, decide deixar seu próprio sotaque nigeriano emergir sem se importar que sua origem pudesse ser identificada assim que abria a boca. Me identifiquei.

Passagem menos favorita: A autora deixa no ar as razões pelas quais o sobrinho de Ifemelu, Dike, que também mora nos Estados Unidos, tenta cometer suicídio, e embora eu compreenda que talvez a intenção tenha sido justamente de criar uma espécie de ressonância (ou seja, aqui estou eu especulando até agora), a impressão que eu tenho é que isso foi uma espécie de subterfúgio pra adiar o retorno da Ifemelu. (Aceito outras interpretações divergentes — por favor). A única coisa que me passa na cabeça seria de que, apesar de aparentemente “adaptado” seu sobrinho sempre viveu preso entre dois mundos, entre ser um negro africano e um negro americano, e não conseguia lidar com isso da mesma forma como Ifemelu lidou — afinal, ela tinha uma identidade nigeriana prévia que ele não tinha. Se realmente foi isso, é um contraponto perfeito, mas a narrativa é bastante vaga nesse ponto e só me permite mesmo especular.

Enfim, é difícil tratar de raça, de imigração, de gênero, coisas tão sérias, difíceis, complexas, e ao mesmo tempo conseguir manter uma narrativa leve, que traz uma interface com o jeito irônico da personagem principal. Ainda mais difícil é tratar de todas essas coisas enredadas numa história de amor, e acho que a Chimamanda conseguiu costurar tudo muito bem. Adoraria que ela passasse um tempo aqui no Brasil. Quem sabe rolasse um Brazileirah? (Rysos).