Fight like a girl

É mais do que evidente nos dias atuais que a sociedade passa (ou tenta passar) por inúmeras mudanças. A maioria delas sendo aplicadas por parte daqueles que sempre foram esquecidos, menosprezados, julgados, excluídos. São mudanças radicais no modo de pensar para aqueles que vivem desde sempre no próprio tempo, ou presos aos dogmas religiosos. Temos de um lado aqueles que apenas desejam ter seus direitos básicos independente do que sejam ou fazem, e do outro, aqueles que preferem as coisas do modo como estão ou sempre foram. Muitos grupos lutam, com seus cartazes e mensagens, seus protestos e campanhas, contra os paus e pedras daqueles que a empatia passa longe. Lutam pelo seu lugar no mundo. E com as mulheres (que ironicamente representam uma enorme parte da população mundial) não é diferente.


A história vista por cima

Desde sempre, as mulheres jamais tiveram tratamento igualitário. E até hoje todas aparentam ter o dever de ser esguias, comportadas, obedientes, do lar (war flashbacks). Tem o dever de serem santas, passivas. Basta lembrar dos desenhos antigos, em que homens das cavernas apareciam com seus grandes tacapes, escolhiam a “mulher das cavernas” mais bonita, e após uma paulada na cabeça as arrastavam pelos cabelos pra caverna deles…onde eles se apaixonavam. Não parece mais tão engraçadinho, né? Alguns irão dizer: “ah mas se exibir um desenho desses hoje em dia vai ter feminista falando pelos cotovelos!”. Vai sim. E como vai. Mas poxa, que coisa boba reclamar de desenho, né? O negócio nem é de verdade, qual o problema nisso? Calma que a gente chega lá.

Avançando um pouco mais no tempo, bem longe das cavernas, temos a idade média e seus romances que servem de inspiração para as mais diversas obras super famosas dos dias de hoje (alô Crônicas de Gelo e Fogo). Parte dessa inspiração vem sim de fatos reais, no caso me referindo a prática de usar as mulheres em tratados de paz, como mercadorias, em casamentos arranjados com o intuito de selar uma aliança e gerar herdeiros (o que ocorre ainda hoje em países menos desenvolvidos e sem realeza envolvida), muitas vezes punidos com morte ou exclusão social quando se recusam ou se relacionam com alguém por livre e espontânea vontade. Pior ainda do que casar contra a própria vontade, é servir como espólios de guerra: as mulheres costumavam ser poupadas nas guerras para serem estupradas pelos soldados (prática que se estendeu por séculos até se tornar crime de guerra e crime contra a humanidade, bem mais tarde, por volta dos anos 90). As que sobrevivem, não raramente possuem herdeiros que vieram em decorrência desses eventos. E se a mulher engravida, ela tem que dar vida ao filho, tem que ser mãe, não há escolha (e o pai?). Será que não? Calma que a gente chega lá.

O século XXI

Não seria exagero nenhum dizer que estas últimas décadas estão sendo marcadas como os tempos em que as mulheres se cansaram. Mas calma aí, isso não significa que elas já não estavam cansadas antes -vem do final do século XIX e no começo do século XX os eventos que levaram a criação do Dia Internacional da Mulher-, cansaço esse que vem de vários séculos passados. O que o século atual tem de diferente é que os temas antes considerados tabus pela sociedade estão vindo a tona, estão sendo mais expostos, questionados. A mudança, mais do que nunca, é necessária e exigida, depois de tanto tempo sendo desejada. Talvez o que marcou uma das primeiras grandes vitórias foi a Lei Maria da Penha, que foi sancionada em resposta aos frequentes casos de mulheres vítimas de violência doméstica.

A violência (não só doméstica)

A tão famosa lei, que visa apoiar as mulheres vítimas de homens abusivos, tem seu nome em homenagem a uma mulher, que em 1983, após 23 anos, duas tentativas de homicídio (ficando paraplégica em uma delas) e muitas cicatrizes, se cansou e denunciou o seu marido. Na época ainda não existiam leis específicas para a violência contra a mulher, e a “justiça” viria 19 anos mais tarde: uma sentença de dois anos de prisão, contra uma sentença perpétua de traumas.

Além da violência física, vem também com ela, lado a lado, a violência psicológica. Por forma de gritos e agressões verbais no caso de homens abusivos, ou as famosas cantadas e assédios sexuais, até mesmo olhares, o vazamento (ou a ameaça dele) de conteúdo íntimo por conta de frustrações amorosas. Em casos mais graves ocorre até mesmo homicídios seguidos de suicídio, por conta de homens abusivos e obcecados, que tem a mulher como uma propriedade, como um tesouro que deve ser dele e de mais ninguém.

Um grande mal do mundo é que medidas para preservar vidas são tomadas apenas quando muitas vidas são perdidas, tal como muitos tiveram que morrer de gripe para criarem a vacina contra a doença. Mas quando se trata de uma “doença” que se arrasta por séculos, algo já enraizado na sociedade, que não se pode curar com remédios e vacinas, temos um problema muito maior.

O machismo

Assunto que renderia um outro texto por si só, o machismo é um dos conceitos mais primitivos e retrógrados da sociedade, e que insiste em não perder força com o tempo. É algo que prejudica tanto mulheres (em escala incomparável) quanto homens, apenas com seus padrões que vem de eras atrás: o homem, inabalável, que não chora, forte e trabalhador, macho alpha, líder da casa; a mulher, sensível, frágil, donzela, que cuida das crianças, faz a limpeza e a comida enquanto o marido trabalha, a dona de casa.

O homem, que gosta das mulheres magras e bonitas, de cabelos bem cuidados, corpo definido, que tem seios firmes, bunda empinada, sem celulite, mas que também sejam sensíveis, frágeis, donzelas, que cuidem das crianças, façam a limpeza e a comida enquanto ele trabalha, a sua dona de casa.

É importante ressaltar que há padrões machistas para homens também, mas o foco aqui não é esse. Porém alguns deles vem ao caso: quanto mais garotas “pegar”, mais fama de “garanhão” se consegue. Quanto mais cedo se inicia na vida sexual, mais “maduro” ele é. Porém, quanto mais tímido, sensível e inexperiente, menos “macho” ele é. O homem então passa a ser comparado com mulheres, ou gays (que são frequentemente e erroneamente associados a feminilidade). É um caso onde ter “traços femininos” é sinal de fraqueza, fragilidade. Por muito tempo a mulher possuiu a alcunha de “sexo frágil”, o que hoje em dia já ficou mais do que provado que não são elas que precisavam mostrar o tempo todo que tem “orgulho” do que tem entre as pernas -e isso sim é fragilidade-.

E para muitos, essa aparente fragilidade é vista como sinal de oportunidade.

A cultura do estupro

A pauta dos últimos tempos, algo que muitos acham pesado demais para ser discutido, muitos também dizem que nem existe, e algo que muitas ficam cara a cara com frequência em suas vidas. A cultura do estupro é real sim, e ela tem base nos atos mais simples: a maquiagem para esconder as espinhas, o cabelo recém cuidado, as roupas que as deixam confortáveis com o tipo de corpo que possuem (sejam elas curtas, decotadas ou justas), tudo para deixar os homens caidinhos por elas- Opa, pera aí, que porra é essa?!

As primeiras coisas que fazem muito frequentemente em casos de abuso sexual ou estupro, é perguntar “o que a mulher estava fazendo lá?”, “que roupas ela estava usando?”, “será que era horário de mulher estar na rua?”. Caso ela estivesse em um lugar sem muito movimento, com as coxas ou um decote modesto a mostra, num horário em que as ruas já estejam iluminadas artificialmente, então a culpa é dela. Oras, quem mandou sair desse jeito? Aí que os homens ficam de olho mesmo! Esse tipo de pensamento é arcaico. Algo deu muito errado para as pessoas, inclusive as mulheres, passarem a pensar em se vestir e se maquiar pelos homens (porque homem não gosta de mulher que etc), e não para se sentirem felizes com elas mesmas, com as próprias roupas e o próprio corpo. E cadê o homem? Onde que ele entra nessa história? Ah, com medo de ser estigmatizada socialmente, a mulher não denunciou o homem e ele já se foi, sem aprender nada e pronto pra fazer de novo.

E aí o machismo entra em cena novamente (como se tivesse saído antes), pois a mulher tem um tanto a menos de liberdade quando a questão é se divertir como quiser, vestida como quiser. Para elas, a regra muda: quanto mais garotas(os) “pegar”, mais fama de “puta” se consegue. Quanto mais cedo se inicia na vida sexual, mais “puta” ela é. Porque esse trabalho é originalmente dos homens, as mulheres nesse caso não são as “caçadoras”, homem não gosta de mulher assim: que não sejam sensíveis, frágeis, donzelas, que não cuidem das crianças, não fazem a limpeza e a comida enquanto ele trabalha, que são “putas”. E, pasme, essa estigma é aplicada até mesmo em casos de estupro.

E essa cultura é enraizada mais profundamente do que se parece na sociedade, embora com cada vez mais frequência tem sido algo mais exposto e pesadamente criticado.

A tal da problematização

Mas será que é exagero problematizar um desenho que nem nos dias de hoje se ambienta? Uma imagem promocional de um filme de super-heróis? As roupas das personagens de um game? Para muitos, a imagem onde o super-vilão Apocalypse (do filme X-men: Apocalypse) aparece segurando pelo pescoço a personagem Mística, não é nada demais; para outros, a imagem representa a já tão saturada dominância dos homens sobre as mulheres; para mais uns outros, é apenas o vilão fazendo o que todo vilão faz: não ter escrúpulos. Mas já foi mostrado que a ficção, apesar de ter esse nome, ainda deve obedecer a algumas das regras do nosso mundo real (nem sempre, é claro, mas tudo depende da forma que o fanservice é aplicado).

As discussões vão longe, toda semana, quase todo dia aparecem pautas novas para jogar na mesa; a que causou mais comoção recentemente, o caso da garota supostamente estuprada por mais de 30 homens numa comunidade do Rio de Janeiro. Desde a monstruosidade no Piauí, foi o caso que mais acendeu os debates sobre a cultura do estupro e que isso deve parar.

A tal da problematização, com seus exageros e tudo mais, se torna necessária para expor tudo aquilo que desde a infância permanece enterrado como algo normal no cotidiano, como pregar os olhos na bunda de uma desconhecida por vários segundos até que ela se perca de vista (seria isso aí exagero também?).

E o aborto? Pode?

Mais um dos tabus muito discutidos há anos, o aborto é uma polêmica onde o machismo vem impregnado também. Muitas mulheres vítimas de estupro acabam por engravidar de seus abusadores, e por motivos religiosos ou por lei, não podem optar pelo aborto: nesse caso a culpa cai sobre elas por terem engravidado. Novamente fica pelos outros a decisão do que se deve ou não fazer com o corpo da vítima, e ainda pior, a vida dela. O filho fruto de um abuso sexual pode deixar sequelas horríveis na mente da mãe, que jamais quis ser uma deste modo. E aliás, ser mãe não é toda essa maravilha, como é mostrado nesta excelente matéria do Uol TAB sobre maternidade. Se já é difícil ser mãe, imagina ser mãe com uma lembrança viva de um dia que merece ser apagado da memória? Deixo aqui a minha opinião: aborto não é crime. Obrigar a mulher a passar por uma gravidez de risco, obrigá-la a ter um filho que talvez seja incapaz de amar por traumas horríveis, que pode ser largado no mundo e se tornar mais uma pessoa infeliz também não é crime. É totalmente desumano.


Então você é feminista? — um recado aos homens

Não. Nenhum homem é feminista, que fique claro. Sendo homem (cis), você não faz parte da luta que as mulheres travam por ter direitos que você já possui. Muitos até tem uma aversão considerável pelo movimento (porque acham que podem falar o que querem e esperar respostas gentis), ou tentam fazer parte. Mas a melhor forma de apoiar as mulheres, é simplesmente respeitar o espaço delas, porque ninguém é superior a ninguém: independente do gênero, orientação sexual, etnia, classe, todos morrem igual. São todos humanos. Assim como homens não gostam que ditem o que devem ou não fazer pra “virar homem”, as mulheres também detestam pitacos sobre como devem viver ou não. É mais do que uma questão de respeito, de “ficar de boa”, é largar séculos de conceitos enraizados na sociedade que inferioriza seres humanos como você, que fazem parte da sua família. Por esse desejo de igualdade, você, detestando o movimento ou não, já apoia o feminismo; os direitos a que cada um tem acesso vão muito além do que se tem entre as pernas (até porque isso não caracteriza se alguém é “homem ou mulher”, não mais). E se o seu objetivo é se dizer feminista e mostrar pro mundo como você é um bom samaritano o tempo todo esperando ser paparicado, tire o seu cavalinho da chuva porque a máscara vai cair rápido. E se acha que isso tudo é “falta de rola”, recomendo ler esse texto de novo e mais alguns. Até porque se o seu medo é a famigerada misandria, então você não sabe o que é ter medo (a não ser que homens comecem a morrer estuprados diariamente ou barrados em equipes profissionais).

Meu objetivo aqui não é ensinar “como ser um cavalheiro”, como tratar uma mulher, mas sim fazer perceber que precisamos expulsar o machismo que existe em cada um de nós, como um programa defeituoso que veio de fábrica no seu computador.

As mulheres querem o espaço delas, a liberdade delas, e os direitos delas. Elas estão lutando por isso, e estão conseguindo.

E os homens não tem nada a perder com isso.

PS: O nome do texto é uma referência a música “Fight Like a Girl”, de Emilie Autumn.
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