Em algum ponto da vida costumamos descobrir e entender a nossa posição individual no universo: uma pessoa, entre dezenas que vivem na sua rua, entre centenas no seu bairro, entre milhões na sua cidade, bilhões no planeta; este, cercado pelas estrelas, os outros planetas, sóis, luas, galáxias, buracos negros — o infinito. Somos todos observadores, sempre preocupados em saber a consequência de cada ação, a causa de todo efeito. Claro que nem todos são assim, muitas pessoas simplesmente vivem suas vidas e as terminam sem muitos questionamentos, a razão de tudo seria a vontade de uma entidade onipotente, tudo se atribui às suas capacidades.

Mas a ciência é cética, e a física quântica se baseia em observar aquilo que nos parece inobservável e inalcançável, afinal, se algo pode ser visto, então aquilo existe. Porém ainda são teorias, e tudo pode ser parte de algo ainda maior e desconhecido. Há também aqueles que são céticos em relação a ciência, paira o medo de que com os avanços tecnológicos cada vez mais ambiciosos para entender o universo e o mundo inobservável, que corre na velocidade da luz, o ser humano acabe chegando longe demais: chegando aonde a nossa natureza racional acaba por invadir territórios antes apenas associados as capacidades de um deus.

E se somos tão insignificantes perante a sociedade, o mundo e o universo, que diferença faz nossa existência e nossas ações nisso tudo? E se pudéssemos voltar no tempo e consertar erros, mudar acontecimentos, fazer com que alguém nasça com um sexo diferente? Ganhar na loteria?

Os físicos certamente já dedicaram muitas pesquisas aos buracos negros e sua relação com a quarta dimensão (o tempo), mas nada comprova o que há além do horizonte de eventos, e assim nasceu o conceito de que eles podem nos transportar além do espaço-tempo. Um conceito muito aplicado em diversas obras da ficção, como Back to the Future, e ainda inalcançável e inobservável na vida real; mas e se fosse possível por acaso?

Imagine que cada pessoa tem sua própria história, sua própria “linha do tempo”, e ao se relacionar com outras pessoas suas linhas do tempo se ligam. Em larga escala, teríamos algo como um infinito barbante, composto de bilhões de pequenas linhas entrelaçadas, todas fazendo parte do nosso presente. Agora imagine que uma mudança possa alterar a estrutura de toda essa extensão infinita, algo como uma guerra, ou o fim de um regime ditatorial; isso seria como um “nó” no barbante, algo que afeta grande parte das linhas que o compõe, um evento marcante que acaba tendo parte em tudo.

Não entendeu? Suponhamos que em 2036 a viagem no tempo seja uma realidade, e sem pesar todas as consequências, uma equipe decide voltar ao passado com um plano de evitar a Segunda Guerra Mundial (um evento marcante). Com a guerra nunca acontecendo, tudo o que veio depois também deixa de acontecer, e milhões de vidas não serão perdidas. Com isso, o mundo e todas as suas linhas do tempo passariam a seguir na “wordline β” (pense na worldline como o infinito barbante constituído por todas as linhas do tempo), ao invés da “worldline α”, onde a Segunda Guerra Mundial aconteceu. Algumas pequenas consequências disso seriam provavelmente um atraso de vários anos na invenção da internet, no aperfeiçoamento dos computadores, e a invenção do microondas, por exemplo. Se as consequências disso já são inimagináveis em 2016, imagina em 2036, e imagina só as consequências maiores (eu não consigo, se você consegue lhe devo palmas).

Uma alteração de tão grande escala assim seria ridículo, claro. Devemos começar por coisas pequenas. Que tal impedir o atropelamento de um cão? Enviar por mensagem de algum modo disfarçado o resultado de apostas e loterias pra si mesmo no passado? Do terceiro prêmio talvez, para não ficar muito em débito com o karma. Porém alterar o passado não te garante conhecimento do novo futuro na linha do tempo em que você irá criar, e é isso o que torna viagens do tempo tão perigosas: o Efeito Borboleta. Ou seja, mesmo mudanças pequenas podem ganhar consequências a nível global.
[Você impediu o atropelamento de um cão com seus “novos poderes”, porém, 100 metros a frente, a família no carro veio a sofrer um catastrófico acidente, nenhum sobrevivente. Porém, antes da alteração temporal, a única baixa havia sido o cão. Agora, além da família morta, o que impactaria mais dezenas ou centenas de pessoas, também não há mais um projeto voluntário para resgatar cães de rua abandonados no bairro.]

Mas tendo o poder de viajar no tempo, não é possível tentar novamente? Sim, se tiver recursos o suficiente para isso; não estamos falando de SUPER poderes. E tendo em mente que mais e mais linhas do tempo divergentes serão criadas -NÃO são universos paralelos, já que independente dos acontecimentos, todas irão convergir para o mesmo “nó”, um mesmo acontecimento de grande escala- e que cada erro e acidentes causados por suas mudanças serão culpa sua, na sua memória. A morte da família no acidente de carro, por exemplo, poderia vir a acontecer de uma dúzia de formas diferentes. Cada pessoa, cada ação, acontecimento, tudo tem um impacto, mesmo que mínimo, que pode ter levado a outras ações e acontecimentos. Isso é apenas parte da complexidade que representa o que chamamos de “tempo”, a unidade de medida das mudanças.

E caso a nossa linha do tempo ou worldline seja alterada de certa forma, vamos perceber a mudança? Não. Mas você pode ter vagas lembranças de si mesmo vindas, por exemplo, de sua vida na “wordline β” (aquela em que a Segunda Guerra Mundial não aconteceu, lembra). A sensação de já ter feito algo, um sonho ou pesadelo que pareceu“real”. Déjà vu.

O ser humano não nasceu com presas venenosas por uma razão.
Não nascemos com super poderes por uma razão.
E essa razão é o nosso potencial, que se estende tão vasto quanto o universo.
Porém, há entre nós aqueles cegos por poder, aqueles cuja visão não representa a dos demais, a da maioria. E se essas pessoas tivessem em mãos algo que as possibilite viajar no tempo? O controle da quarta dimensão, algo acima de políticos e famílias reais. A utopia de alguns, a distopia de todos.

Há um limite pro quanto o universo pode se expandir? Não sabemos. Há um limite pro quanto podemos evoluir e chegarmos próximos de moldar a realidade? Fantasia, talvez. Mas há um motivo para as cobras não voarem. E o passado, como diria Stephen King em seu livro “Novembro de 63”, é obstinado.

Então é realmente necessário que tenhamos esse poder em mãos? O poder de consertar erros e evitar acontecimentos? Mesmo que tudo no futuro seja inevitável? Alguém curado de uma doença grave pode vir a morrer de outra anos mais tarde. Nunca saberemos. Então a incerteza sempre prevalece, mesmo quando sabemos o que há de ser feito. Nossa única escolha é viajar para o futuro, um centésimo por vez, um milésimo, um segundo, o tempo que leva para um passo ser dado, e moldar nós mesmos o nosso destino. O passado e os erros permanecem lá, e são eles que nos fazem aprender e ser como somos hoje.

E você sabia que é possível ao menos observar o passado? Basta olhar as estrelas quando puder. Todas aquelas constelações levaram dezenas, centenas de anos e viajaram bilhões, trilhões de quilômetros na velocidade da luz até chegar aos seus olhos na forma de um pequeno ponto brilhante. Se quem vive de passado é museu, os observatórios são os maiores museus que existem, basta procurar por aí quantas obras de arte que o universo produziu há milhares de anos-luz de distância são registradas por eles.


Este texto foi inspirado pela visual novel “Steins;Gate”, disponível para compra no Steam.

É uma experiência e tanto, recomendo com todas as forças. É bem pesada de jargões e referências otaku, e de termos avançados de física quântica/neurociência, porém todos muito bem explicados, então serve pra qualquer nicho. São 50 horas de leitura, escolhas e muito sofrimento que valem cada centavo; você certamente não vai querer mandar um D-mail por arrependimento de ter comprado. Provavelmente você vai entender melhor esse texto se já tiver jogado, mas espero ter criado interesse em quem ainda não conheceu a obra. Aliás, esse texto não teve spoilers, e a VN explica muito melhor o que abordei aqui.

El Psy Kongroo.

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