Quando o problema não é só a timidez.
Já conheceu alguém que “é muito quieto”? As pessoas costumam dizer “ah, ele é sossegado, na dele”. Já conheceu alguém que “fala baixo demais”? Costumam dizer que “ele é tímido, tem vergonha”. E alguém que pede pra você pedir informações na rua, ou fazer um pedido no balcão de uma lanchonete “por favor”? Que recusou ir naquela baladinha top que todo mundo vai e ficou em casa?
Você pode ter conhecido uma pessoa com todas as características acima, ou até mesmo ser uma delas. São pessoas que muito provavelmente sofrem de fobia social (ou ansiedade social/sociofobia), um transtorno psicológico bem conhecido pela internet, mas não muito fora dela (por que será né? Dica: os portadores do transtorno tendem a ser reclusos).
Mas poxa, é só sair mais de casa. Socializar mais! Vai pra uma baladinha, conhecer gente nova! Sai dessa bolha!
O argumento acima pode ser bem comum pra quem claramente não sabe do que a fobia social se trata. É quase como dizer que “pra curar a depressão, é só não ficar triste”. Aliás, depressão sendo uma doença que anda lado a lado com o assunto desse post. Parecem ser pessoas complicadas, não é? Mas desde quando a vida é fácil pra nós “meros mortais” num mundo cheio de crises uma pior que a outra? Ah, as crises. Não falo das crises do mundo, mas das “internas”. As chamadas crises de ansiedade, amplamente associadas a traumas, fobias, são uma constante na vida de quem sofre com a fobia social e diversos outros transtornos.
Mas o que raios é isso?
Usando descaradamente um trecho da Wikipedia (se souber, pode pular o parágrafo):
É um transtorno ansioso, caracterizado por manifestações de alarme, tensão nervosa, medo e desconforto desencadeadas pela exposição à avaliação social — o que ocorre quando o portador precisa interagir com outras pessoas, realizar desempenhos sob observação ou participar de atividades sociais. Tudo isso ocorre até o ponto de interferir na maneira de viver de quem a sofre.
(e tem bem mais aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Fobia_social)
São pessoas que tem um grau variado de ansiedade/desconforto em certas situações que envolvem pessoas desconhecidas ou multidões, que podem até não ser temidas, mas não é como se pudessem evitar eventuais crises.
E o que essas pessoas sentem de fato? O que se passa na cabeça delas?
Vamos usar como exemplo uma situação que é um pesadelo pra maioria dos sociofóbicos: as baladas.
Dezenas de pessoas agrupadas, uns dançando, outros bebendo, outros conversando, muitos te observando enquanto você passa. Mas o que as pessoas que te observam pensam de você? Será que estão conversando sobre você? Aquelas pessoas ali perto dando risada. Será que tem algo de errado nas suas roupas? Será o seu cabelo? Provavelmente estão te achando estranho. Será que você deveria dançar junto com aquelas garotas? Elas provavelmente vão rir de você. E puxar papo com aquela gata de óculos? Nah, tem gente mais interessante, ela não iria te ouvir falando com tanta gente e tanto barulho. Você senta numa mesa, e passados 30 minutos na balada, já tem desejos reais de voltar pra casa, com o eventual cansaço psicológico se tornando físico. “Como eu sou idiota”, “eu nem ao menos tentei”, “cara…não devia ter saído de casa”, “eles estavam certos, eu sou esquisito”.
Sim, é isso o que acontece. Viu quantas partes destacadas em itálico? Tudo isso pode se passar pela cabeça da pessoa em momentos diversos, ou tudo ao mesmo tempo. Pode ter sido um parágrafo doloroso pra quem sofre com isso. É de situações como essa que a pessoa escolhe se isolar mais, ser um tanto “invisível” pro mundo. Mas nem de longe ela quer deixar de ser notada.
Alguns podem pensar: “ué, sozinho na balada a pessoa não aproveita nada mesmo! Vai com uns brother!”, e aí entra outro ponto: forçar a pessoa a socializar.
Não. Façam. Isso. Não forcem a pessoa a “dar ideia naquela gata”. Não façam o “ei aquele cara ali quer te conhecer”. Isso pode ser engraçadinho a primeira vista, mas pode ser um trauma horrível pro seu amigo sociofóbico. Ele vai ter que: 1) falar com alguém que não conhece, 2) vai ser obrigado a manter contato visual com a pessoa (algo que evitam bastante, a maioria anda olhando pro chão), 3) vai ser julgado pela pessoa, e essa lista se estenderia por vários outros fatores, mas por fim, 4) se virar pra puxar assunto. Se você leu aquele parágrafo sobre baladas, provavelmente já se ligou que essa situação é MUITO pior. Não entrando em detalhes, mas o dia do seu amigo acabaria ali mesmo. “Mas poxa, meu amigo vai ficar lá sem fazer nada?”, e a resposta é sim, se ele quiser. Conversar, dar dicas, é uma coisa, fazer sem a permissão é outra.
E essas foram apenas algumas poucas situações que podem ser ruins, mas existem mais várias outras, como atender ligações de um número desconhecido no celular ou reclamar de um alimento errado que serviram num restaurante. Coisas aparentemente “bobas”, mas que justamente por isso, fazem o sociofóbico se sentir cada vez mais incapaz e com cada vez mais vontade de se isolar da sociedade.
E como ajudar essas pessoas já que posso acabar atrapalhando fazendo o que seria certo pra mim?
Como ajudar aquele seu “amigo estranho”? Como apoiar aquele seu “amigo antissocial”? Não usando palavras e frases como essas entre aspas já é um bom começo. Ajudar pode ser difícil, mas se souber ser um bom amigo, pode ver que essa coisa toda de “fobia” vai embora, e o lado “social” da pessoa pode ser algo que agrade todos ao redor. Você vai ser um amigo pra alguém que acha que não tem espaço em grupos de amigos, em relacionamentos. Eventualmente a pessoa vai deixar de pensar assim. Todo o apoio possível é válido, desde que não seja algo imposto. Sem contar o enorme grupo que é a sociedade. A sociedade com suas pessoas exigentes, capazes de liderança, extrovertidas, proativas, de boa formação acadêmica, é isso que o mundo pede hoje em dia, certo? Pode até ser, e talvez seja por isso que quem não se encaixa em um, ou nenhum desses requisitos se sinta tão perdido. Mas ninguém é incapaz de mudar ou agir.
A partir daqui, o texto fica praticamente 100% voltado a quem sofre da fobia social. Aviso porque o foco muda bastante.
É claro que quem sofre também precisa se ajudar
Quem tem fobia social geralmente também é cansado de depender das pessoas, de ser defendido. Falando sobre mim: isso sempre aconteceu comigo, e a sensação de impotência que isso causa não é das melhores. Mas a culpa não é de quem ajuda, muito menos de quem precisa da ajuda. É necessário fazer algo difícil: enfrentar os próprios medos. Arranjou uma entrevista de emprego? Faça. A sensação que tenho depois de uma é a de ficar submerso numa piscina por 30 minutos, mas a de poder respirar novamente é melhor. Porém a sensação de ter evitado tudo por medo de “se molhar” é humilhante. Mesmo que você ache que não foi bem, a sua vitória foi não ter desistido. Você enfrentou seu medo. O objetivo do emprego novo pode ter falhado, mas o de crescer e superar as barreiras fica mais perto. Você vai ser julgado? Vai. E é esse o desafio.
Precisa pegar metrô ou ônibus no caminho pra entrevista? Pegue. Mas vá com a principal “arma” pra evitar desconforto: fones de ouvido. Música é uma das melhores, se não a melhor forma de se isolar num ambiente.
Se perdeu depois e precisa achar o caminho mas o GPS do celular anda te confundindo? Peça informação pra alguém na rua. Procure um taxista, pergunte numa banca. As pessoas não mordem, ao menos a maioria delas! Você pode até usar um pouco da hipocrisia e julgar quem poderia lhe ser mais confiável ou que possa ajudar. Todos fazem isso na verdade.
Falar é fácil né, Mateus!
Mas é claro. Eu não disse que seria fácil seguir os conselhos que dei, existem diferentes níveis de fobia social. Não tenha vergonha, nem deixe o orgulho te impedir de procurar ajuda profissional caso nada funcione, caso veja que “não tem saída”. Nunca não tem uma saída. Já passei pelas situações que disse ao longo do texto, ainda sofro com algumas. Talvez eu precise dessa ajuda profissional também. Olhando pra trás vejo o quanto cresci sozinho, mas o caminho pela frente é injustamente maior. E aí vem a ansiedade novamente. Entra aqui aquela frase bem cliché: “é a vida, né”.
Antigamente eu não conseguia ir a meet ups, sempre furava com alguma desculpa, mas no fundo era sempre aquela ansiedade/medo (hoje em dia ainda rola umas furadas ocasionais, quem nunca né). Hoje 90% dos meus amigos são da internet. Moro em cidade grande (São Paulo), então tem gente pra caramba em todo lugar. Especialmente nos horários de pico. Sério, é muita gente. Mesmo pegando metrô com os fones de ouvido, nesse caso, eu ainda fico bem tenso.
Lembro um dia (carnaval desse ano) em que eu e mais 9 amigos estávamos indo pra casa de um outro amigo nosso (detalhe: quase todos se conheceram pela internet), viagem de SP pra Mogi das Cruzes. No mínimo 1h30m de trem (mais lento que o metrô, no caso). Mas o que poderia dar errado neste belíssimo dia entre amigos? Uma chuva que fez os trens pararem por mais de 40 minutos nas linhas, e o atraso acabou nos deixando no horário de pico dos trens (que já são naturalmente ainda mais lotados que os metrôs). Não sou mágico pra contar, mas usando minha intuição poderia jurar que tinha bem mais de 200 pessoas ali (o que na contagem que a PM usa em protestos daria 3 mil pessoas). Eu pensava “ok, tudo certo, to com meus amigos mesmo”. Mas deu tudo errado. Os trens ficaram mais lotados do que eu imaginava que era possível. No vai e vem de pessoas (pra cada 10 que saiam, entrava o dobro), acabei separado dos amigos (por uns 3 metros de distância, o suficiente pra eu não ver mais ninguém). Eu não conseguia mover meus pés, não podia abaixar os braços pra pegar o celular, estava esmagado por pessoas em todas as direções. E a ansiedade, tão rápido e forte quanto o trem bateu em mim nessa hora. Eu respirava fundo, pensava que logo aquilo iria acabar (não era metade do caminho ainda), mas meu corpo dizia o contrário. Eu tremia como se estivesse fazendo 5ºC naquele dia de verão. As pessoas me olhavam, perguntavam se tava tudo bem e eu respondia que sim, que era “normal em lugar cheio” (por favor né, queria enganar quem?). Acho que estavam mais preocupados se eu ia desmaiar no meio daquela multidão, mas eu nem tinha pra onde cair mesmo. Quase uma hora depois, chegamos em Guaianases, a metade do caminho. Se você fez uma careta, faz parte, as coisas não melhoraram. Digo, a segunda metade da viagem foi tranquila, fui sentado e consegui enfim usar meus fones, mas eu não sabia que era o único no trem. Meus amigos ficaram pra trás no empurra-empurra horroroso da entrada sem eu saber e ficaram bem preocupados, eles sabiam como eu estava mal (fora outros problemas também complicados que ocorreram), mas logo souberam que eu estava bem e a viagem terminou com todo mundo meio cansado e traumatizado (mas deu tudo certo depois). Aquele dia foi realmente um teste pra mim (não só pra mim), o pior dos testes até hoje. Sabe aquela surra que você nunca vai esquecer? Foi uma dessas, mas da vida.
Finalizando…
Não abordei tudo que queria nesse texto, mas sinceramente, dá pra escrever um livro falando sobre minhas experiências como sociofóbico, ou das dificuldades dos portadores. Fica aqui um “insight” de um transtorno que muita gente sofre, mas que infelizmente a maioria das pessoas desconhece, até algumas que sofrem disso. E fica a dica pra quem quer superar isso também. Infelizmente acontecem coisas que não estamos preparados previamente, mas transformar tudo em força depois é a chave. Pessoa com fobia social fazendo peças teatrais? Dando palestras? Tocando música pra públicos pequenos? Não só é possível, como já vi acontecer. Mas não faz mal ser invisível de vez em quando, todos precisam “sumir” vez ou outra.