Mulher de fases

I

Conheci a maldade dos homens antes de conhecer o mundo.

Na barriga da mãe, ouvi que “essa vai dar trabalho” — horas depois, o enxoval rosa foi comprado: havia bichinhos, borboletas, elefantinhos, lacinhos, inhos, inhos, inhos, inhos. Tudo pequenino, minúsculo, exatamente como uma menininha deve se portar diante de um homem.

II

Enxergo o mundo. Muita informação. Fecho os olhos.

Acordo com um bracelete rosa e um gorrinho de mesma cor — para me diferenciar dos meninos no berçário. Mal sabia eu que, dois anos depois, essa diferenciação seria feita a ferro e fogo, com um furo não requisitado em minhas orelhas — “para ficar bem menininha”, dizem. Perfuram meu corpo para me demarcar como gado. Ser menininha é receber o tratamento de um animal prestes a ser levado para o abate. É isso que somos? O gorrinho rosa, os lacinhos e os bichinhos servem para nos introduzir ao mundo das presas?

III

Velha o suficiente para ler, escrever, fazer cálculos básicos e aprender a ser mãe.

Dão-me uma boneca bizarramente realista que mija, caga e necessita de atenção. Ela também é uma menininha, percebo, pois possui brincos. Veio com um vestido rosa, exatamente da cor do meu enxoval. Cores pastéis, diferentes tons de rosa, bonecas de brinco, panelinhas, fogãozinho, inho, inho. Tudo rosa, pequeno e da casa. Olho para o meu colega, que brinca com um kit de cientistas — e para o outro, que constrói castelos com seus legos. Uma dupla de meninos brinca de lutar. As meninas se reúnem para brincar de casinha, inha, inha. Uma delas é o marido, a outra é a “mulher”; a primeira sai de casa para trabalhar, a segunda cuida da boneca de brincos. A primeira desaparece e vai brincar com os meninos, a segunda mantém a boneca embaixo dos braços, protegendo-a. Sozinha.

Seria esse um prelúdio do nosso futuro?

IV

Mais gritos de dor.

Pêlos cresceram, pêlos foram arrancados com cera quente — todos. “Pra ficar bonita tem que sofrer mesmo!”, ouço e aceno com a cabeça. Se não sentir dor, é porca-imunda-relaxada-que-não-tem-higiene-e-merece-ser-queimada-na-fogueira. Fogueira? Mulheres foram queimadas durante a Idade Média por serem consideradas hereges, descubro em uma aula de história. Todos se olham, concordando com o absurdo que esse fato representa. Os garotos, com suas barbas em crescimento e pêlos aparentes, falam sobre o quanto respeitam suas mães e namoradas. Ah, eu só pedi a senha do Facebook dela, mas sabe como é, se for vagabunda eu vejo e já descarto na hora… mulher tem que se dar ao respeito. Mas eu não agrediria, é claro que não. Violência jamais, ele diz. Ri, abre o celular e vê o grupo do whatsapp onde seus amigos repassam fotos íntimas de outras meninas. Tem mais é que ser estuprada mesmo!

Ficamos quando eu estava bêbada — sem a sua namorada saber. Ele tira minha roupa e vê que me depilo, se diz satisfeito… questão de gosto, sabe como é, mulher sem pêlo parece mais limpinha… ele diz isso com um sorriso amarelo que se esconde por trás da barba. Muito bêbada para consentir alguma coisa, lembro-me do gorrinho rosa, dos brincos (que continuam ali) e dos bichinhos.

Virei uma presa.

V

Equilíbrio em cima de um sapato que se distância 12 cm do chão. Saia lápis para “valorizar as curvas” e dificultar os movimentos. Maquiagem cara, argamassa para tampar as “imperfeições” que “toda mulher tem”. Trabalho de 8h, sempre equilibrada a 12 cm de distância do chão, a faz-tudo do chefe, que tem um olhar malicioso e invasivo que sinto cada vez que me retiro de sua sala. Recebo 2/3 do que recebe meu colega de função — será esse o preço a se pagar pelo assédio moral e sexual? Abaixo a cabeça. Pequenina, como me ensinaram a ser antes do meu nascimento. Pequena como uma mulher deve se portar diante de um homem.

Pelo menos, estou bonita. Né?

VI

Conheci o mundo.
Conheci os homens.
Não soube diferenciar um do outro.
O mundo é mau — e é dos homens.

O mundo é mau por pertencer aos homens.