eu não consigo concatenar minhas ideias mas eu preciso escrever

a tua poesia que antes me extasiava hoje me enoja.

a minha, por sua vez, já perdeu parte da qualidade enquanto se preocupava em ser profundamente verdadeira. o papel branco é o meu cavalete e as palavras são as minhas tintas pintando de forma desordenada, mas ainda intensa, e — espero — harmoniosa e bonita.

não há nada mais bonito na escrita que a sua fidedignidade, o eu-lírico só dança pelas palavras da língua portuguesa com cadência quando consegue experienciar de forma plena tudo o que (mal) cabe no peito, que escorre pelos olhos, sem precisar abafar os gritos no travesseiro.

escrever não é observar pinturas em um museu, com um distanciamento entre o autor e o observador. na arte de coordenar palavras não existem dois personagens. caso contrário é ficção.

eu poderia te atacar e acusar sua falta de genuinidade, mas não me é permitido. você nunca se comprometeu com a veracidade dos escritos tanto como eu, que me ponho despida e vulnerável em tudo que escrevo. você se mantém distante — seja por mera conveniência, por falta de atenção ou mecanismo de autoproteção, você tem essa aura misteriosa que não permite a ninguém desvendar o que está por baixo da sua pele. você é um ficcionista.

isso não é vantagem, tampouco imparcialidade.

aquele que opta por não se posicionar e se abster está se posicionando. a indiferença nunca significou neutralidade, afinal de contas.

e aqui estou eu, em um ciclo interminável, completamente incapaz de deixar de me surpreender com a sua indiferença. com o jeito que você passa e perpassa por mim de perto e de longe causando aquele burburinho no peito que hoje me desperta um ataque de pânico.

olhando de longe eu não conseguia acreditar que você poderia se revelar uma pessoa tão cruel. olhando de perto, eu pude confirmar.

você não é a mesma pessoa que eu conheci na brisa leve de março, abril. você é outra coisa. eu te desconheci ao conhecer quem você realmente é. frio, indiferente, egoísta.

“você tão ingênua pra algumas coisas”, você disse.

eu assenti. não imaginaria que um dia você usaria isso contra mim.

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