matando memórias

queria me lembrar de você com o mesmo sentimento bom que eu tinha em abril desse ano. com o mesmo frio na barriga todas as vezes que eu ia te encontrar, com a mesma certeza de que eu tinha encontrado alguém importante. o amor da minha vida. a pessoa que seria distinta de todas as outras. alguém que me fizesse feliz como ninguém antes foi capaz de fazer.

queria me lembrar de você com o gosto do seu beijo gravado na minha boca, com os seus braços me protegendo e com as nossas conversas que abrangiam todos os assuntos. queria me lembrar de você com o brilho do amor nos olhos e guardar esse sentimento estático e imutável dentro da minha cabeça.

mas não consigo mais.

eu venho empreendendo uma guerra contra todas as boas memórias que eu tenho de você, e tem sido mais fácil do que eu planejei. você facilitou tanto. talvez você tivesse consciência disso e não se importou, talvez sequer tenha pensado a respeito. eu não sei qual é mais imprudente, mas sei que a esse ponto já não faz tanta diferença. o resultado é o mesmo.

você não tomou o menor cuidado na hora de me proteger da própria indecisão, então eu ajo com a mesma falta de cautela a respeito de tudo que me lembra você. estou matando tudo até que não sobre mais nenhuma lembrança para me machucar.

e nesse cenário torpe, você ainda tenta me acalentar. diz que vai me procurar no futuro. como se tivéssemos nos conhecido no tempo errado. esse era o seu ano, você disse. de não se comprometer com nada, de não assumir responsabilidades, você disse. eu tentei aceitar e concordar, mas o tempo nunca esteve tão certo. eu era a pessoa certa no tempo certo, e você também. mas optou por ser errado e por culpar algo que está imune de culpa.

você tentou me garantir um depois destruindo completamente o agora. eu sou uma pessoa diferente e, na tarde fria de uma quarta-feira em que eu escrevo esse texto, você é mais diferente ainda. e é por isso que não nos conhecemos no tempo errado. fomos certos no tempo certo, mas é incrível como apesar disso ainda conseguimos errar tanto. a certeza não é garantia de muita coisa, afinal: só pode ser confirmada com o esforço e dedicação para fazer as coisas durarem. e nós não temos mais isso.

esse era o seu ano, você disse. seus 365 dias para ser completamente egoísta. eu não concordei, mas aceitei. fui obrigada a aceitar. no futuro teríamos tempo, você teria tempo pra mim, nós seríamos quem tínhamos que ser pra entrar numa relação duradoura.

mas não seremos.

eu amo quem você foi pra mim, eu amo o que eu conheci de você. eu não amo essa pessoa desconhecida que você se tornou, que me machucou deliberadamente e que simplesmente não se importa. eu não amo quem escolheu me deixar de lado pelo mesmo motivo repulsivo que você me deixou. você não é mais a pessoa pela qual eu me apaixonei, e errou tanto de uma forma que eu não consigo ignorar e fingir que não doeu. que não dói.

talvez no futuro quando a gente se esbarrar eu já nem te reconheça mais

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