Sua criança interior se orgulharia de quem você se tornou?

Estava sentado na varanda de minha casa, quando avistei de longe uma criança sozinha, um garotinho para ser específico. Vestia um conjunto de moleton e tênis preto. Seu cabelo era escuro, o que fizera com que me lembrasse de minha infância. Ele estava parado, imóvel. Olhando para o nada.
Me aproximei dando passos largos, evitando fazer barulho. 
— Oi? menino? está perdido? — Me ajoelhei perto de onde ele estava.
Ele olhou diretamente em meus olhos. E não soltou uma palavra sequer. 
— Se me disser o nome de seus pais, posso te levar ate eles — Insisti , aproximando minha mão de seu braço.
Ele continuou imóvel, como se fosse uma estátua mas, uma estátua com vida e alma que impelem.
Seus olhos pareciam querer gritar, gritar para mim, senti que eles queriam me dizer alguma coisa. 
Sem ter sucesso em nenhuma tentativa de faze-lo falar, me sento na grama em frente a ele, pego algumas pedrinhas que estavam logo ao lado e acabo tentando mais uma vez
— Quando eu era pequeno, me perdi de minha mãe em um supermercado, nunca me senti em um estado tão pavoroso como nesse dia, por um momento fiquei com medo de nunca mais vê-la. Todavia, logo no fim de um corredor ela surgiu eufórica e me abraçou como se tivesse me perdido por semanas. — Percebo que lágrimas escorrem de seu rosto, incorformado continuo: — Sei como se sente, está tudo bem ok? Eu vou te ajudar. Só preciso que me conte seu nome e o do seus pais. 
Sua expressão facial muda, quando ouço-o balbuciar
— Quem é você? — Ele começa a chorar sem cessar, seus olhos embaçam — Por que está aqui? Não era para você estar aqui. 
Confuso tento acalma-lo, dando leves tapinhas em seu joelho.
— Meu nome é Oliver. E estou aqui porque moro aqui. E o seu? Como se chama ?
— Oliver. 
Pasmo. Meus olhos regalados entram em hipnose. Será uma brincadeira? Quem está fazendo isso? Não tem graça! 
— Oliver? Você também se chama assim? Olha que coincidência. E onde você mora? Vamos entrar, lá posso te dar um casaco e algo para comer. — Fazia -2 ali fora, era inicio de um longo inverno.
Fez que não com a cabeça.
— Você lembra de mim? — Indagou ele, olhando fixamente para mim.
— Eu devia? — Perguntei, sem entender porque ou de onde deveria me lembrar dele. 
— Eu fiz parte do seu passado. Eu sonhei com você, eu sonhei por você. Eu planejei coisas grandes pra sua vida. Eu te imaginei em outro lugar. Não aqui — Ele mantêm o olhar em mim, sem piscar. — Por que tomou decisões que mudaram tudo? Por que seguiu esse caminho? 
— Desculpe, eu não sei do que esta falando. Seria impossível você estar junto comigo. — Sem querer conversar mais, me levanto e digo em um tom mais grave — Vamos. Vou te levar para casa. 
Ele se deita na grama, fechando os olhos, cantarolando uma musiquinha que minha mãe costumava cantar para mim todas as noites. 
— Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Para o meu
Para o meu amor passar
 — Ele volta a abrir os olhos, soltando uma risadinha irônica ao terminar.
— Sua mãe te canta essa música também? — Perguntei ao garoto, sentando novamente ao seu lado
— Ela cantava, antes de partir. — Ele solta um suspiro doloroso
Minha mãe havia morrido quando eu era mais novo, eu tinha entre 7 e 8 anos. 
— Me lembro dela. Minha mãe cantava ela para mim todas as noites. Ate que em uma delas, ela sofreu um terrível acid....
— acidente de carro — interrompeu o garoto em meio a minha fala.
Assustado, indaguei novamente
— Como sabe? 
— Porque ela era minha mãe também. — Deslizou uma lágrima de seu rosto, escorrendo até seu queixo e então, caindo rapidamente ao chão, se misturando com os grãos de barro entre a grama. 
Me aproximo abraçando-o.
— Como posso te ajudar? — Questiono intrigado
— Você não pode, já destruiu quem eu sou. Suas lembranças de mim são rasas, suas escolhas nos afastaram. — Ele falava com um olhar frio, triste e constante. 
— Eu sinto muito, não imaginei que isso te prejudicaria, se soubesse não teria o feito. — Ainda sem entender a situação 
— Não. Você prejudicou a você mesmo. Eu sou você. Eu era você, no passado. O mesmo passado que você, por egoísmo, abandonou. — Ele me acusa, sem hesitar 
— Eu não te abandonei. Eu apenas, tentei seguir o que achava que seria melhor pra mim, pra nós. Sinto muito
— Tudo bem. Eu também sinto. Suas escolhas te levaram ao nada. Olha para você. Sozinho, vazio e sem vida. Nunca imaginei que ficaria assim. — Ele já exausto, olha para os lados tentando pensar em alguma lembrança boa. — A gente corria o tempo todo. Amavamos aquele parque, no qual havia balanços coloridos, nosso favorito era o ... 
Eu o interrompo dizendo
— Azul — solto uma risada
— Isso. O Azul — ele confirma e sorri — Sinto falta dele. 
— Eu também. — Olho para o chão por alguns segundos, até fixar meus olhos novamente no garoto — Posso fazer algo para mudar isso? 
— Não, embora possa mudar o seu presente, para que nunca precise se arrepender das suas escolhas a partir de hoje. 
— E como posso fazer isso? — 
— Como dizia o pequeno príncipe "o essencial é invisível aos olhos", pare com essa vida fútil e egoísta. Procure nos detalhes aquilo que você procura em coisas banais. A inocência é a essência da vida, sem ela tudo perde a graça. Recorra a ela.
— Não consigo entender. Como? 
— Sua mente adulta limitada está bloquiando isso. Volte a infância e tente de novo. — Ele se levanta sorridente 
— A onde você vai? 
— Para casa. — Ele vira de costas e sai caminhando em direção a um bosque logo a frente
— Vou te ver de novo? — Grito, já de pé 
Ele olha pra trás, com um olhar irônico 
— Espero que sim. 
Sinto meu corpo todo formigar, sinto minha pressão caindo ate que, desmaio.
Caiu com tudo ao chão.

Horas depois. Lá estou eu, está quase escurecendo e ainda estou na rua. Sozinho.
Para onde foi o menino? Será que foi um sonho? Não sei.
Me levanto e vou saltitando em direção de casa.