Você me salvou.

Estava eu, andando decidido, com os ombros largos e bem erguidos, em direção a uma avenida.
Quando me preparava para atravessar, senti um leve puxão na parte inferior do meu casaco. 
Era uma garota, cuja possuía enormes fios de cabelos louros e uma pele alva como raios de sol, vestia uma calça jeans rasgada no joelho e uma blusa azul marinho caída por cima de um dos ombros.
— O que é ser feliz? — Gritava a garota subitamente, com um olhar frio e sem vida enquanto continuava a me segurar.
Sem saber o que dizer, apenas pego em uma de suas mãos e levo-a ate a próxima calçada, atravessando a avenida. 
Sem hesitar ela continua:
— Me diga alguma coisa, eu preciso de uma resposta.
Ainda sem palavras, olho perplexo em direção a rua, noto a forma como a fumaça que sai do cano de descarga dos veículos, se mistura a cada partícula de poeira, assim se tornando tudo parte do oxigênio em que respiramos.
Olho novamente, logo adiante, um parquinho, com crianças correndo e pulando de um lado para o outro, sorrindo e brincando. O vento sopra nas árvores que lá se transformam em sombra.
As nuvens no céu estão em movimento, e os pássaros continuam cantando incessantemente. Sinto cheiro de flores, comida, fumaça, suor, tudo misturado.
Ouço um barulho como de um estrondo, é a busina de um enorme caminhão. Ele acaba de ser ultrapassado por uma moto em alta velocidade. Nada de mal acontece. Apenas um susto. Um aviso do que poderia ter acontecido.
Volto a olhar para a garota, dizendo:
— Olhe ao seu redor. Não enxerga? O mundo não para. As pessoas não param. Elas procuram sempre viver o máximo que podem, isso é ser feliz. — Aponto para o parquinho, logo em seguida para as árvores e nuvens. — A felicidade está nos detalhes. Está na forma como você encara as coisas. 
Ela me olha de forma duvidosa, tentando entender a que ponto eu queria chegar.
— Tente de novo — Eu insisto — Recomece. Se de uma nova chance de ser feliz. 
Em instantes, seu olhar inseguro se transforma em lágrimas que escorrem em seu rosto. 
Vendo aquilo, lembro de quando era mais novo, minha irmã que é onze anos mais velha do que eu, sentia se feliz quando seu namorado a beijava, no final de cada beijo, ela sorria com suas pupilas dilatadas.
Lembrei de minha mãe trocando carinhos com meu pai, ate o dia em que ele acabou partindo sem deixar um bilhete ou algo parecido. 
Cheguei a conclusão de que, compartilhar afeto é essencial para conquistar sorrisos.
Logo em seguida, sem pensar em mais nada, apenas no quanto isso fosse se tornar útil, agarrei-a pela nuca e a beijei.
Um beijo molhado com desejo e euforia.
— Isso é ser feliz — Sussurro ainda com nossos lábios encostados.
Ela me olha corformada, soltando um sorriso agradecido. 
— Eu estava andando sem direção a poucos minutos atrás, quando te vi de longe, senti que havia algo em você que poderia me levar a realidade de volta. 
Obrigada. Você salvou o meu dia. Da mesma forma que a busina daquele caminhão anunciou um possível acidente, a sua existência nesse momento, nesse lugar, salvou a minha vida. — ela explica olhando fixamente dentro dos meus olhos, como se tentasse enxergar minha alma através deles. 
Abraço-a com força, sem querer soltar.
Sinto que era tudo o que ela precisava, tudo o que eu precisava. Ambos nos salvamos