Rascunhos e notas de uma reforma incompleta

Existem sombras na alma que assustam qualquer pessoa que se aproxima. Deixe-me antecipar algo: estou quebrado, perturbado, dividido. E, para ser sincero, calmo. Sinto-me conversando com um velho amigo triste.
Não me responsabilizo pelo que lerá. Não me responsabilizo pelo que farão com essas palavras. Não me responsabilizo sequer por mim mesmo. Minha alma está em reformas.
Como é estar em reformas? É a pior temporada da vida. Cada vez mais doloroso, cada passo mais assustador. É…

Não, nananinanão.
Está proibido.

Gosto de pedir autorização para fazer qualquer coisa que não precise muito de um pedido de autorização. Por exemplo, um “deixe-me”. Para que serve essa porcaria? É claro que vai deixar, estúpido, imbecil, nojento, o leitor já se propôs a ler o texto e… Espera, que leitor?

Estava andando sozinho pela cidade esses dias e lembrando como foram terríveis os dias de depressão e desgraça, mas a pergunta é: qual a diferença dessa época para agora? Há mesmo essa diferença? Mudei tanto assim?

Resposta: não há diferença nenhuma.
Isso me tranquiliza. Nunca tinha pensado se realmente queria encarar o passado como se fosse uma perversão da contemplação de algo que vai te absorver, e por muito tempo fiz isso. Por que tenho medo da depressão, da solidão, das armadilhas da minha mente que buscam ganhar um xadrez contra eu mesmo? Ter medo de qualquer coisa é desnecessário, mas por que o medo do passado? Deixe-me, há!, contar mais algo: a vida dói. Dói muito. A alma está no mundo para gemer de dor, pouco me importa a causa, se a mais nada serve a causa ela serve ao orgulho.
O passado dói.
Porque o presente dói.

O mundo está sempre se movendo.

Sempre.

Nunca foi necessário escavar as leis da física para saber disso.

O movimento da alma é a dor. Isso não significa que a dor seja sempre a agonia, às vezes o próprio prazer é dor. Quantas vezes já tocou na eternidade e quis permanecer ali para sempre? Já teve a oportunidade de parar o tempo? Sair da eternidade dói. Por que não podemos estar sempre com Deus? Por que isso não acaba logo? Por que essa jornada terrena não se finda de uma vez para que deixemos de viver de faíscas e recargas? Como difere essa minha dor atual da dor que eu sentia antes? É a mesma! A horrível sensação de pertencer ao tempo, de estar aprisionado em um corpo e ser contrariado e às vezes derrotado pela própria inquietude da alma. A busca pela eternidade, não por uma sede pagã de poder sobre o tempo, mas pelo simples fato de desejar eternamente o abraço do Amor maior que de vez em quando vem e mostra que tudo aqui é tão pouco. No que isso tanto se difere da minha anterior incapacidade de suportar o peso do tempo?

Eu não mudei.
Eu nunca mudei.
E estou feliz por isso.

Ainda sinto dor. Mais dor. Antes, os silenciosos movimentos da minha alma causavam explosões que mais me pareciam bombas atômicas emocionais. Hoje estou sofrendo verdadeiras cirurgias, sendo arremessado de um canto a outro por uma catapulta, ou qualquer outra coisa que queira.

A fé dói.

Não poder — e por não poder, digo que é impossível desobedecer a eletricidade da consciência, é impossível desejar sair da órbita divina — recusar a voz do “Não”, a voz do “Vá”, a voz do “Pare”, dói. Outro dia, li o texto mais lindo da minha vida. Não era do corpo ao qual pertenço, mas do corpo do irmão mais velho: o desdobramento da alma de um judeu. Ele dizia que a fé produz solidão, a fé não é para os incapazes de se sentirem sós. A fé produz um escândalo, um afastamento. A fé nos dá alegria, mas nos educa a resistir tempestades, a vencer os desertos, nos leva a entender que tudo é tão ruim quanto imaginávamos mesmo. A fé nos ensina a sentir dor e aceitar; antes eu corria, de poço em poço, o que também era doloroso, mas agora sei que não adianta. A fé ensina que há horas onde tudo o que resta é bom ânimo.

A solidão, às vezes, é a rotina. Não estou dizendo que somos criados para a sociopatia, mas que a vida vai se tornando mais feita de coisas que não compartilhamos que do contrário. Dói quando Deus manda fazer algo absurdo, dói fazer e dói ter de ouvir das pessoas todas as possíveis interpretações erradas, em especial as que são feitas de propósito e expõem uma maldade inacreditável. Dói saber que, por norma, seremos odiados por um mundo de pessoas. Não me diga que não dói, que em nenhum momento isso importa, seu mentiroso. Como se o coração se curvasse assim ao espírito sem nenhuma resistência, como se cada um não tivesse uma muralha de orgulhos a derrubar.
Jesus carregou uma cruz, e nós temos que carregar a nossa parte. E dói.

Eu vim da solidão.
É por isso que Deus não se apresentou a mim como médico, ou revelador, ou justo juiz, ele se apresentou como amigo. Não é difícil perceber isso vendo como sou uma pessoa de observar muito e contar muitas histórias, não tenho medo de falar absurdidades, sempre falei com um amigo disposto a ouvir tudo. Eu, seja isso bom ou ruim, não sou a pessoa que normalmente sai tocando os outros e curando, ou caçando endemoniados para exorcizar, e também não sou a pessoa que vai trabalhar na construção de lindos templos. Sou a pessoa que vê tudo isso acontecer e transforma em palavras pelo prazer de usar as boas coisas como combustível da companhia. Não é que eu acredite que é possível Deus curar um surdo, é que vi isso acontecendo, e na minha cabeça sempre fez sentido falar disso com a maior naturalidade que existe porque sempre convivi com pessoas que falam disso com a maior naturalidade — quando deixou de ser, eu quase morri.

Deixe-me assumir mais algo: tudo o que escrevi até agora foi escrito sentado numa sala cheia de gente orando e cantando enquanto tocavam música, espero não ter soado estranho pra ninguém escrevendo sem parar em posições estranhas, mas aquela sala é meu segundo quarto, estou lá todos os dias da semana para marcar meu território. De lá para cá se passou um dia e meio e tudo o que fiz foi polir o texto, mas não o acabei, pelo contrário, sinto que não consegui dizer absolutamente nada do que queria. Sofri a tentação de apagar tudo e começar de novo, nem está muito bom, nem sei se algo daí faz parte do que desejo. Acho que as pessoas vão ler isso e rir. Ou vão ficar preocupadas. Acho que…

Como disse: estou quebrado, perturbado e dividido.

Tudo o que quero é escrever sobre isso. Quero que ninguém entenda como um pedido de socorro, aliás, se puder não interferir tentando concluir algo sobre mim e apenas me ouvir, agradeço. Você está errado.
As pessoas às vezes não entendem quando outras pessoas contam seus problemas para entendê-los, hoje mesmo contei a alguns amigos o espetacular caso onde fui contar a um amigo sobre um problema que estava passando. Fui dizendo palavras e mais palavras e elas foram se enrolando como o famoso jogo da cobrinha, até que em algum momento elas colidiram e eu já não conseguia dizer mais nada, aí esse meu amigo disse “olha, você não está mais fazendo sentido” e, como mágica, consegui enxergar o problema como ele realmente era e não como os gigantescos demônios que tinham se formado na minha mente estavam dizendo que era. Como um exorcismo.

Minha mente tem muito disso, a sua tem?

Sou uma pessoa de imaginação muito fértil e isso significa todas essas coisas que você está imaginando e muito mais. Lido com todos os pecados da imaginação. Imagine você quais são, se for capaz. Não é uma confissão minha, é um desafio pra você. Se sofre na mesma intensidade que eu, tenho certeza que já captou o mais bobo, mas também mais cruel, deles, só de ler até aqui. Se não sofre, fique na curiosidade.

O fato de tudo isso parecer tão quebrado, perturbado e dividido quanto eu estou me preocupa muito. Talvez tenha sido a pior coisa que já escrevi. Quero falar sobre um trilhão de coisas, um turbilhão de emoções, que talvez conseguiria descrever com precisão se, no fundo, não quisesse descrever com a liberdade de não me cobrar precisão alguma.

Como eu disse lá no começo: estou feliz de não ter mudado nada de quando me converti pra cá. Vejo cristãos desejando mudanças e entendo qual é o sentido disso, mas vendo numa figura maior (o nível da criação em si e todo o mar de possibilidades), não gosto da idéia de mudar. Não essencialmente. “Mudar hábitos” não expressa mudança essencial, “Evitar pecados” muito menos. Aliás, enquanto algumas vezes expressa um verdadeiro fruto do amor divino, em outras expressa apenas hipocrisia. Creio que existem coisas que, quando você faz, você sai da realidade, você sai de você. Sair de você é mentir. Mentir é pecado.
Acredito que, por mais que tenha tomado as decisões mais erradas do mundo em 2012, não existe “se fosse hoje, tomaria decisões diferentes”. Isso nem faz sentido. Para que meu hoje tenha se tornado meu hoje, o meu 2012 teve que ser exatamente como foi meu 2012. Não gosto de desrespeitar todas as batalhas de um ”eu” completamente perdido. Não gosto de desrespeitar a maneira usada por Deus para me encontrar no meio disso tudo. Gosto do meu passado, não por ser melhor que boa parte das ficções que conheço, mas porque graças a ele estou aqui hoje no que tenho certeza de ser a melhor vida possível pra mim no dia de hoje, querendo que muitas coisas sejam diferentes amanhã já que honestamente hoje nada mais pode ser diferente.

Talvez eu tenha amadurecido bastante.
Talvez eu esteja muito mais sociável agora. O que não parece muita coisa para quem me conheceu ontem é, na verdade, uma transformação de uma pessoa que tinha uma cota de 10 palavras por mês em ambientes estranhos para uma pessoa que abre a boca relativamente bastante. Cansa conversar, sabia? Não, não para você, mas para quem tem deficiências de caráter e traça na mente infinitas rotas de interpretações depreciativas para tudo o que os outros estão falando, e infinitas possibilidades do que se deve responder, isso demanda uma energia mental absurda que leva a pessoa à exaustão em questão de cinco minutos de conversa. É horrível. Já vivi isso. E volto a viver quando estou quebrado, perturbado e dividido. Sabe aquilo de que “é bom estar com Jesus porque ele não nos julga, mas carrega nossos fardos”? Jesus é ótimo em resolver a fé de uma pessoa em depressão, porque ele é a primeira pessoa com quem se fala e não se sente peso na mente, não se tenta montar rotas de interpretações e respostas feito Trackmania porque sabe que ele possui todas. Conversar com Jesus, quando se é depressivo, é perceber a graça a nível mental e emocional.
Mas isso e muitas outras coisas não me mudaram como pessoa, só me alimentaram e deram perspectivas novas. Algo ficou intacto. Não me sinto mudado, me sinto mais completo, bem-moldado e livre. Consegue entender o que quero dizer? É como se Deus não precisasse arrancar nenhum pedaço do meu coração, só iluminá-lo e expulsar os demônios e, se quiser revisitá-lo, tenho essa liberdade.

Posso ficar triste o quanto quiser.

Posso ficar deprimido o quanto quiser.

Eu não me importo. Me importar me traz uma sensação estranha de que preciso me preocupar com não repetir os erros do passado para colher as mesmas conseqüências, mas isso não pode mais acontecer, não há mais a legião de demônios naquele lugar para que hajam as mesmas conseqüências. Elas serão diferentes e poderão até ser ruins de sua própria forma. Isso não deve ser motivo para me sabotar.

Não deveria ter medo da solidão, normalmente não tenho e nesses tempos de maior miséria deveria ter menos ainda. Não é bom, eu sei, é gostoso ter amigos que gostam mais ou menos das mesmas coisas que você, ou que entendam mais ou menos o que você diz, ou que aceitem ir contigo em lugares agradáveis. Mas às vezes ela acontece, e aí? O que fazer com aquelas idéias perturbadoras que aparecem e ficam circulando? O que fazer com aquelas coisas que você simplesmente não encontra palavra nenhuma para expressar? O que fazer com as suspeitas que simplesmente não podem ser contadas? O que fazer com aquela revelação bombástica que, não só ninguém vai entender, como você mesmo ainda não entendeu e está num caminho de um, dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta anos para terminar de entender e colocar num papel? E aí que vai doer, como eu disse. Mas e daí? Não pode doer? Por que não? Não vai passar?
Quero muito contar coisas às pessoas. Às vezes atropelo o caminho do silêncio. Nunca é bom. Antigamente textos como esse eram escritos aos montes, enquanto só estou desconfinando esse do meu caderno porque sinto uma obrigação inexplicável de desconfiná-lo. Antigamente eu também queria contar coisas extremamente complicadas aos outros, como se os outros só pudessem ter dificuldade de entender equações diferenciais ordinárias, como se eu entendesse muita coisa também — mas não era com má intenção, juro, eu simplesmente me empolgava muito com tudo o que via; ser recebido com baldes de água fria sem parar, dos simples “não entendi nada” aos “você é louco” aos “você é um crente filho da puta que tá inventando qualquer coisa pra me converter”[vocabulário meramente ilustrativo], me fez perceber que havia algo de errado em fazer isso e não poderia ser mau caratismo das outras pessoas, talvez o problema fosse eu e eu deveria parar de divulgar as euforias da minha alma para pessoas incapazes de ouvir. Ser incapaz de ouvir isso não é defeito, quero deixar claro: eu mesmo não me suportaria às vezes, sei disso porque me leio, muito mais do que 451 mil tweets de um projeto megalomaníaco ou alguns textos no Medium, a minha pilha de folhas é assustadora.

Às vezes, no entanto, não são algumas pessoas que são incapazes de te ouvir. São todas. Às vezes só Deus pode te ouvir. Às vezes Deus é seu único ouvidor por algumas horas, mas às vezes é por dias, e às vezes é por meses. Uma hora isso se confunde com a própria timidez e a própria dificuldade de conversar sobre problemas sérios com os outros, e é horrível, tudo se mistura com uma facilidade tremenda na mente. Tudo o que pode dar errado dá errado.

Por incrível que pareça, estou calmo e bem. Estou feliz de poder ficar triste. Não é algo muito parecido com aquelas falsas liberdades de movimentos, de livros motivacionais baratos, “me libertei de um tabu!”. Era algo que, no fundo, eu sempre soube, mas agora que estou vivendo o conhecimento é sólido e foi se fechando na mente conforme eu ia escrevendo isso aqui. Estranhamente, só a partir do momento em que tomei consciência de que isso seria publicado.
Deixem-me dizer uma penúltima coisa: odiei escrever todas essas palavras desconexas e sem sentido e, por mim, não publicaria nada disso. Não sei de onde vem essa vontade estranha de publicar isso. Estou reclamando porque, na minha cabeça, não faz sentido nenhum. Mas agora é tarde: está consumado.

Ah, e a última coisa: se não entendeu nada, tudo bem, eu também não entendi, mas obrigado por ler; se acha que estou louco, bem, não é o primeiro, mas dessa vez eu te entendo bastante, e muito obrigado; se acha que estou tentando te converter, olha, você leu até aqui porque quis, e inclusive muito obrigado. Acho besteira tentar converter qualquer pessoa que seja, eu acendo o pavio, quem faz a bomba explodir é Deus.

Tenham um bom dia.

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