Gasto x Custo x Despesa x Investimento e por que eu deveria me importar com isso?

Imagine aí que você tem uma empresa de fabricação de móveis e que é de praxe a compra, a cada 6 meses, de um montão de matéria-prima para alimentar o seu processo produtivo do semestre. Bem, uma pessoa alheia ao negócio, analisando o seu fluxo de caixa perceberia que janeiro e julho são meses de uma grande queda das disponibilidades (bancos, caixa, aplicações de liquidez imediata e dinheiro em trânsito) e até aí tudo bem.

Entretanto, significaria dizer que em janeiro e julho sua empresa não seria lucrativa? Lucratividade é um termo pesado não é? Ele pretende dizer muita coisa sobre a nossa capacidade de ter sucesso nos negócios. Não seria justo dizer que pelo simples fato de ser mais vantajoso pra você comprar matéria prima de maneira concentrada em determinados meses; que nesses você deixaria de ter uma empresa lucrativa. Então, isso sugere que há diferentes maneiras de classificar meus gastos enquanto empresa…

E aí pessoal, tudo tranquilo? Hoje tentarei elucidar a diferença desses conceitos do título e também tentar gerar uma motivação para o uso deles de maneira correta.

Antes de tudo, é crucial mencionar que a contabilidade de custos nasce voltada para o processo industrial, foi lá que seus termos foram cunhados e por vezes precisamos fazer considerações extras quando trazemos esses mesmo conceitos para entidades não industriais. Dado esse alerta, partamos para a conceituação:

  • Gasto — é um termo guarda-chuva que engloba qualquer compra de produto ou serviço, com qualquer finalidade. Compra essa que resulte em sacrifício financeiro que implique na entrega de ativos (bens ou direitos) ou na promessa de entrega desses (compras a prazo).
  • Investimento: gasto que foi ativado (transformado em ativo, ou seja, em um bem ou direito) em função da expectativa de que deles fluam benefícios futuros para entidade.
  • Custo é um gasto incorrido na produção de outros bens ou serviços. É consumido durante o processo de produção. O custo uma vez incorrido passa a compor o valor contábil do produto que está sendo produzido.
  • Despesa acredite ou não, até hoje não achei uma definição que me satisfaça para despesa sob o ponto de vista da contabiliade de custos (isso dá outro artigo). Normalmente são conceituadas como gastos realizados visando a obtenção de receitas e que não são relacionados ao processo produtivo (ex: salários das pessoas do meu setor administrativo, material de escritório consumido pelo mesmo setor). Vamos nos utilizar dessa definição por hora, criticando-a mais à frente.

Então, como seria classificado a compra de uma fresadora computadorizada para a nossa linha de produção. Bem, primeiramente seria um gasto, correto? É um gasto pois implica em sacrifício financeiro (imediato, caso o pagamento tenha sido à vista ou uma promessa de entrega futura, caso seja a prazo). Depois, ele é também um investimento, por que esse gasto foi transformado em um ativo, haja vista termos uma nova máquina de onde esperamos que fluam benefícios futuros (melhoria do meu processo produtivo) para minha entidade. Tudo certinho? Vamos continuar nossas análises então.

Agora imagine que a nossa fábrica possui dois medidores de energia, um para a parte fabril e outro para a parte administrativa. A energia é um gasto pois implica em sacrifício financeiro, porém não passa pela parte de investimento (não é armazenada com a finalidade de se obter benefícios futuros). Essa energia é instantaneamente consumida no processo produtivo e por ser um gasto intimamente ligado a esse, vai diretamente para a fase de custo. Então energia consumida no meu processo produtivo é custo? Yup.

Paralelamente, a energia gasta pelo setor administrativo da empresa também é um gasto (implica sacrifício financeiro), não é investimento (não é armazenada com a finalidade de se obter benefícios futuros) e também não é um custo, pois não está intimamente ligada ao meu processo produtivo. Então, pelo nosso atual conceito, a energia gasta pelo setor administrativo da nossa pequena fábrica de móveis é uma despesa.

Finalizando, quando a nossa empresa em questão compra um grande carregamento de matéria prima, aquilo não é despesa (e nem custo ainda), mas sim investimento, pois essa matéria prima é agora um ativo (um bem que eu mantenho na expectativa de que dele fluam benefícios futuros). No momento em que essa matéria prima é utilizada no processo produtivo, aquele meu investimento é transformado em custo e esse passa a compor o valor contábil desses meus produtos em transformação. E agora vem um fato interessante, no momento em que eu vendo aquele meu produtinho que estava só engordando nos meus estoques, consumindo todos aqueles custos de fabricação, todo o valor acumulado por esse produto é transformado em despesa.

E aí você diz, WTF. Mas se acalme que a coisa vai clarear.

Beleza, demos nomes aos bois, mas não dissemos o que eles devem fazer. Para que serve então toda essa divisão conceitual que realizamos?

Bois devidamente nomeados. PS: Isso parece capa de cd de rap

Um dos objetivos dessa divisão é que não incluamos gastos que não são despesas na hora de apurar nosso lucro. E qual o demonstrativo financeiro que tem como objetivo primordial a aferição do lucro da empresa?

Acertou! É a famosa Demonstração de Resultados do Exercício (DRE). Vamos dar uma olhada em um exemplo dela.

— Então, quer dizer que na DRE não tem investimento?

— Isso.

— Na DRE também não tem custo?

—Exato.

— E o Custo das Mercadorias Vendidas (em analogia, Custo dos Serviços Prestados, Custo dos Produtos Vendidos)?

— São despesas, apesar do nome. Essas contas representam o montante de custos relacionados às suas mercadorias que foram atribuídos ao período analisado em forma de DESPESA em decorrência da sua venda, pelo respeito ao princípio da competência (a ser melhor discutido no futuro).

E é por essa transformação em despesa dos meus custos antes absorvidos pelos meus produtos em fabricação, que eu não gosto da conceituação de despesa como um gasto não relacionado ao processo produtivo, apenas.

Então, essa separação de gastos entre as categorias despesa, investimento e custo serve para que acompanhemos a situação do patrimônio da empresa sem distorções.

Aí você me pergunta. Sim, sabidão, então onde eu acompanho esses outros gastos em que incorri e que não são propriamente despesas?

E eu respondo. Ora, minha jóia, informar sobre todas as entradas e saídas da empresa é um papel para o fluxo de caixa. Lá você registrará todas as entradas e todas as saídas de dinheiro independente da classificação segundo a contabilidade de custos.

Você pode ver também os valores investidos através do Balanço Patrimonial (BP), mas como estamos falando da realidade nua e crua, muitas das empresas não terão um BP atualizado.

Confesso que esses conceitos não são fáceis de digerir, mas servirão bastante no nosso papo sobre gestão financeira. Um bom gestor financeiro precisa dominar as muitas línguas que são faladas pela organização, duas delas são a contabilidade e a contabilidade de custos. Bem, qualquer dúvida, sigam a dica desse link abaixo:

http://bfy.tw/JxfF


Se você anda incomodado com a maneira como o seu negócio é estruturado, anda procurando formas de engajar pessoas, de ser mais responsivo ao dinamismo desse mundo complexo; mas sente que algo maior está te travando, vamos tomar um café (ou talvez algo mais gelado). A gente sente o mesmo e estamos na mesma busca.

Victor Batalha