
Há pouco mais de dois meses, a Europa despertava em choque com o massacre ocorrido na sede do jornal satírico ‘Charlie Hebdo’. Um pouco por todo o mundo as pessoas rangiam os dentes de raiva e exigiam que se fizesse justiça. Ruas e praças eram tomadas de assalto por gigantescas manifestações de apoio à liberdade de expressão, enquanto que as constantes provocações que caracterizavam — e continuam a caracterizar — a essência do periódico eram unanimemente ‘beatificadas’, até pelos próprios visados. E de repente todos nós éramos rebatizados…
Todos nós éramos ‘Charlie’.
Bem, aparentemente, boa parte da humanidade padece de uma espécie de miopia territorial crónica. Tudo que vá para além de um hemisfério de distância — ou por vezes nem tanto — é passivamente aceite, como se de uma fatalidade se tratasse. Recuando novamente à semana do massacre em França, que pôs termo à vida de 12 pessoas, e gerou uma onda de repúdio global. Nessa mesma semana, poucos foram os que deram conta que, paralelamente, na Nigéria uma outra fracção terrorista — Boko Haram — linchava 150 pessoas (dados oficiais), havendo no entanto quem afirme que o real número de vítimas ultrapassou as 2000.
Enfim, como tudo na vida há prioridades, e a carnificina humana em Baga foi desagradável, mas aqui pelo ‘mundo civilizado’ estávamos demasiado concentrados em ser ‘Charlie’, portanto, não se poderia exigir que fossemos também ‘Betserai’, ‘Ajani’ ou qualquer dos 1998 outros nomes das vítimas do Boko Haram.
A verdade é que cumprimos o nosso papel com distinção. Fomos solidários q/b, e acabamos premiados com um ‘final feliz’, quando as breaking news davam conta que os assassinos do Charlie Hebdo tinham sido abatidos. Finalmente, ao fim de uma semana, podíamos ir para casa e dormir descansados. O ‘Charlie’ — que no fundo éramos todos nós — tinha sido vingado e o mundo voltava à normalidade. É certo que ainda houve uma ameaça aqui e ali, mas nada que uma Europa em ‘alerta vermelho’ não resolvesse tranquilamente. Enfim, como dizia Shakespeare: Tudo está bem, quando acaba bem.
Deixamos de ser ‘Charlie’.
Continuamos a viver as nossas vidas pacificamente, e vamos assistindo pelos nossos LCDs de 42' polegadas ao que se passava ‘lá para o Sul’. Mas só nos intervalos da Casa dos Segredos, porque como disse há pouco…
Na vida há prioridades.