E tem quem não acredite no amor

Ele arranjou emprego, tirou ela da casa dos pais no interior com o filho pequeno para morar na capital. Já não aguentavam a distância entre as cidades e viver de telefonemas noturnos. Era daqueles amores intensos que geravam as melhores noites, e as maiores brigas. Ele bancava tudo que podia. Alugou um apartamento de dois quartos no centro. Ia comprando os móveis aos poucos, enquanto os dois conversavam sobre o casamento. Ele trabalhava o dia inteiro, chegava em casa a meia noite. Uma hora de trem, enquanto ela esperava. Esgotado no sofá mal falava, enquanto ela demonstrava suas inquietações subliminarmente. Passava os dias em casa cuidando do filho. Se sentia presa. Queria voltar a trabalhar, por o filho na creche, ter seu próprio dinheiro. Jogava nele esse peso. Nos ciúmes, nas brigas e caras fechadas. Ele pensava: Por que ela faz isso se é pra sempre? Se é eterno? Se é pra ficar? Nunca disse nada porque isso nunca foi consciente ou claro. Essas perguntas se formavam nas entranhas de sua tristeza. No âmago do que ia-o matando e afastando dela. Algumas coisas só nos damos conta quando é tarde demais. Nada era suficiente para ela, nada era bom o bastante. Até o dia em que partiram. A convivência, e não o amor, acabou se rompendo nesse cabo de guerra entre a desconfiança e a cobrança. Após a maior das brigas ela levou tudo que ele tinha, sem olhar pra trás. Um caminhão carregado de móveis e sentimentos feridos. Ficou só o amor, enterrado no fundo da garganta. Nunca mais se viram, nem se tocaram.

Ele em dias de chuva ainda morre um pouco num copo de cerveja, olhar perdido no ar. Ás vezes sonha com ela, com suas pernas em volta das suas. Se encontram em sonho. Mas sempre se acorda. E é sempre hoje, sempre um dia mais distante daquele mundo deles, de amor intenso e sonhos que não tocam o chão. Sempre um dia mais distante do que foi.

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