Incêndios florestais em Portugal: os números

Mais um Verão, mais uma série de incêndios florestais. Talvez o próximo ano seja melhor. Talvez seja pior. Ninguém sabe. De qualquer forma, o tempo passa. Eventualmente toda gente se esquece. Até que os incêndios voltam a acontecer. E o ciclo se repete.

Após uma semana non-stop de notícias e debates sobre este assunto, em que o meu concelho (Águeda) foi um dos mais afectados, reflecti um pouco mais sobre este ciclo e em duas questões em particular:

Será que tudo isto é normal noutros lados? Ou será que somos os únicos a passar pelo mesmo todos os anos?

Posso dizer que este mini-período de reflexão veio mesmo a tempo. Encontrando-me a fazer uma viagem de longa duração, deparei-me com bastante tempo livre. Decidi, então, mergulhar nestas questões e enfrentá-las.

A abordagem não podia ter sido mais simples. Fui ao Google, fiz o download de todos os estudos que encontrei e li-os de uma ponta à outra. Como eu achei os números surpreendentes, comecei a apontá-los num notebook. Quando reparei, vi que tinha conteúdo suficiente para criar um blog post dos pés à cabeça. E é assim que nós nos encontramos aqui. :)

Este artigo é então um highlight desses números que permitem que qualquer pessoa possa adquirir uma opinião informada sobre incêndios florestais em Portugal. Se tem algum interesse sobre este assunto, acredito que os próximos 10 minutos valerão a pena:

1. Os incêndios florestais acontecem muito frequentemente ou nem por isso?

Sim, são bastante frequentes. Entre 1990 e 2012, ocorreram 516,061 incêndios. Exacto, mais de meio milhão de ocorrências. 64 incêndios por dia, todos os dias, durante 22 anos. Ininterruptamente.

O quadro é bastante claro… A tendência é para agravar, tanto a nível de pequenos fogos (<100 hectares) como a nível de grandes fogos (>1000 ha):

  • 1980–89: +70,000 ocorrências
  • 1990–99: +200,000 ocorrências
  • 2000–12: +300,000 ocorrências

Tendo em conta que a esmagadora maioria dos fogos tem causa humana, é impressionante que um país de 10 milhões de pessoas consiga alcançar tais números.

2. Os incêndios florestais são também muito frequentes noutros países do Sul da Europa?

Incêndios são frequentes em países como a Espanha, Itália e Grécia, mas não com a mesma dimensão que em Portugal. Daí que os números apresentados na questão anterior serem verdadeiramente surpreendentes.

Por exemplo, em 2000, 2003 e 2008, 38% de todos os incêndios no sul da Europa ocorreram em Portugal.

Igualmente, Portugal teve o maior número de incêndios entre 2007 e 2013. E não estamos a falar apenas da soma total. Estamos a falar de cada ano também:

Às vezes a diferença entre Portugal e os outros é bastante grande. Em 2010, ocorreram em Portugal 22,026 incêndios. Em 2º lugar veio a Espanha com… 11,721 incêndios, o que é quase metade.

Mas ainda não acabou, pois não nos podemos esquecer da diferença a nível populacional entre cada país:

  • Portugal: 10,460 milhões de habitantes / 146,387 incêndios entre 2007 e 2013 / 0.14 incêndios por pessoa
  • Itália: 59,830 milhões / 43,680 incêndios / 0.0007 incêndios por pessoa
  • Espanha: 46,770 milhões / 94,498 incêndios / 0.002 incêndios por pessoa
  • Grécia: 11,030 milhões / 9,653 incêndios / 0.009 incêndios por pessoa

Não há muito mais a dizer… Temos realmente muitos mais incêndios que o resto dos países da região.

3. Podemos ter muitos incêndios mas… quanto da nossa floresta está a ser consumida?

Se compararmos Portugal com os outros países do sul da Europa, então somos novamente capazes de alcançar números incríveis:

Source: Elaboration from EFFIS data

Os anos mais recentes não foram melhores:

Portugal represented more than 50% of the burned area in South Europe in 2003 (57%), 2005 (57%) and 2010 (51%). A pattern that has remained unchanged in recent years.

E quais são as dimensões de cada país e qual a sua dimensão relativamente ao resto do sul da Europa?

  • Total (sul da Europa): 1,033,497 km2
  • Portugal: 92,212 km2 — 8.9% do território total
  • Itália: 303,338 km2 — 29.3%
  • Espanha: 505,990 km2 — 48.9%
  • Grécia: 131,957 km2 — 12.8%

Ou seja, Portugal possui 8,9% do território total, mas é o que tem a maior percentagem de área ardida recorrentemente. Um ano anormal é um ano em que Portugal não ganha esta corrida… de longe.

4. Ok, temos muitos incêndios que consumem muita floresta. Mas qual é o impacto que isso tem?

Economicamente, entre 2002 e 2006 os incêndios florestais causaram um dano superior a 300 milhões de euros anualmente.

O pior ano foi em 2003, onde a Comissão Europeia estimou que os danos chegassem a 1 bilião de euros.

Além dos danos económicos, entre 1982 e 2013, morreram 69 pessoas e 150,000 foram directa ou indirectamente afectadas pelos incêndios.

Como comparação, o dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais teve um orçamento anual , em 2015 e 2016, de… 70 milhões. (Fonte: DN, JN) E aparentemente é esta a área onde mais recursos da nossa parte são investidos. Assustador.

5. Se o impacto é assim tão grande, porque é que não recebemos mais ajuda da União Europeia?

Apesar do par de aviões que recebemos da Itália e da Espanha não terem sido uma dádiva impressionante, a verdade é que podia ter sido pior.

No total, houve 50 pedidos efectuados ao Mecanismo de Protecção Civil Europeu entre 2007 e 2013, e 20% desses pedidos não resultaram em nenhuma assistência em concreto.

Nesses 10 casos, tal aconteceu devido a:

  • Falta de capacidade dos países em partilhar os seus recursos pois os mesmos já estavam a combater os seus próprios incêndios;
  • Melhoria rápida da situação no terreno do país que efectuou o pedido;
  • Problemas técnicos com os aviões que eram supostos serem enviados para assistência;

De louvar a ajuda providenciada por Marrocos e pela Russia. É a prova de que acordos bilaterais continuam a ter uma importância bastante grande, apesar da existência deste mecanismo na União Europeia.

6. Quais é que devem ser os próximos passos?

Não sou um especialista, daí que sugiro que leiam os últimos capítulos dos seguintes estudos, nos quais me baseei para escrever este artigo:

Apenas sublinho esta passagem para realçar que, independentemente das soluções escolhidas, não temos muito tempo à nossa frente:

These results (…) did not find an increasing trend in large fire occurrence in Portugal, but found a cyclical pattern with a return period of 3–5 years.

7. E o que é que eu devo retirar deste artigo?

Voltando ao início…

Mais um Verão, mais uma série de incêndios florestais. Talvez o próximo ano seja melhor. Talvez seja pior. Ninguém sabe. De qualquer forma, o tempo passa. Eventualmente toda gente se esquece. Até que os incêndios voltam a acontecer. E o ciclo se repete.

Não tem que ser assim. Se ninguém se lembra, ninguém previne. Se ninguém se lembra, ninguém implementa. Se ninguém se lembra, nada muda.

Daí eu ter criado este artigo e ter partilhado estes números. Que não nos esqueçamos deles daqui a uns meses. Que não nos esqueçamos deles em tempo de eleições. Só assim é que se cria vontade política para que escolhas difíceis sejam tomadas, que certos interesses sejam derrubados e para que, finalmente, haja uma mudança.