Ru Paul em momento "Tô passada" na nova temporada de All Stars.

Por um legado com as estrelas

Essa semana estreou a segunda temporada de RuPaul's Drag Race All Stars, que é uma extensão do reality show homônimo, conhecido pelos íntimos por RPDR, cuja oitava temporada foi exibida agora, em 2016.

Fui apresentado a essa série no fim do ano passado e já devo a ela muitas horas entretidas com personagens que parecem estranhos em um primeiro momento, mas ao longo dos episódios revelam aspectos de suas personalidades que apaixonam os fãs da franquia.

BeBe Zahara Benet, africana vencedora da primeira temporada, com look e atitude que deixaram Ru sem fôlego

Mais do que uma competição ao título de próxima drag superstar americana (valendo nada menos que US$ 100.000,00), o reality nasceu e se firmou com a promessa de ser uma plataforma de lançamento de novos talentos ao showbiz. Ou seja: as queens serão projetadas para o mercado e terão suas audiências ampliadas a partir da exibição do programa. Mais importante que sobreviver a competição, as rainhas encontram no reality a chance de mostrarem ao público suas personagens e também o ser humano que está por trás de tanta maquiagem e roupas extravagantes.

Tatianna (segunda temporada), supresa ao sobreviver a um Lipsync. Era uma das novatas com menos experiência no babado. Foi convidada para disputar novamente a coroa nesta versão de All Stars. É uma das minhas favoritas.

A âncora fundadora do programa, conhecida pelos íntimos como Mamma Ru, desafia as queens em cada episódio a provas que testam suas habilidades em todas as modalidades que fazem um artista ganhar notoriedade na mídia. Seja atuando, desfilando, costurando suas próprias roupas, dançando ou se apresentando pra uma audiência ao vivo, as mais bem sucedidas são aquelas que conseguem improvisar para compensar seus pontos fracos, além de usar com precisão suas habilidades mais desenvolvidas.

Kim Chi, da oitava temporada. 450 mil seguidores no Instagram, mas sua mãe ainda nem imagina o que ele faz.

Com regras rígidas e um roteiro base que muda muito pouco entre as temporadas, a cada episódio uma queen é eliminada, ou na gíria dos entendidos, sashay away. Os jogos mentais dos bastidores, os ataques histéricos, as críticas duras dos juízes e a escassez de tempo são obstáculos que todas enfrentam para sobreviver. Aquela que acaba partindo geralmente deixa a bola cair ao longo do episódio, ficando quase sempre compreensível as razões de sua dispensa. “Keep it cute or sashay away”. Mantenha a elegância, faça bem o seu trabalho e não sabote ninguém pra continuar no jogo.

Thorgy Thor (oitava temporada), convidada a se retirar do programa. Voltou para o glamour de NY, eliminada por Chi Chi DeVayne, uma drag da humilde Lousianna. Nesse universo não importa de onde você veio, o que vale é sua força no palco.

Apesar da crescente popularidade e da disseminação de jargões fomentados no programa para o mainstream, a própria Ru garante que a arte drag nunca deixará a marginalidade. Como toda cultura de gueto, ela tira suas maiores forças (carisma, singularidade, paciência e talento) naquele ponto de exclusão inerente à margem do mundo civilizado. As histórias desses artistas revelam dramas clichés do meio LGBT, como famílias desestruturadas, violência doméstica, bullying, exclusão de seus locais de origem e renascimento em novas praças.

A seleção das queens é extremamente criteriosa e, devido ao sucesso e permanência do programa no ar, pode levar anos para ser feita. A vencedora desta última temporada, Bob the Drag Queen, é um bom exemplo de “Drag Race Baby Boomer”, ou aquele jovem que cresceu vendo o programa e fez de sua participação uma meta de vida. Segunda a própria, ela sabia que seria vencedora logo quando recebeu a ligação que confirmou sua seleção no programa, pois se preparou com tanta paixão que sabia que não havia mais ninguém que pudesse apresentar algum risco ao seu futuro reinado.

Detox, que ficou em quarto lugar na quinta temporada, volta agora repaginada para o All Stars. No print acima, ela faz o tutorial de um make no canal da Logo no YouTube. Pq ensinar é preciso.

Assim como Bob, outras winners deixaram sua marca e estão até hoje envolvidas em projetos paralelos interessantes. Para esta edição do All Stars, as queens mais populares (mas que não foram vencedoras) a partir da segunda temporada foram convidadas a uma nova chance de entrarem no hall of fame das winners. O jogo é basicamente o mesmo, mas algumas regras dessa edição foram adaptadas pra deixar a dinâmica mais ágil, já que o número de episódios e a verba para produção são reduzidos em relação as edições originais.

Os jurados dessa edição espinafram e elogiam as rainhas, como de costume. A decisão final, porém, não está mais nas mãos deles. Ficam fofocando e tomando uns bons drinks enquanto as queens deliberam entre si.

Entre as mudanças de maior destaque, vale ressaltar aquela que muda a mecânica de seleção das queens que terão que performar no final de cada episódio. Antes, as duas últimas colocadas na avaliação dos jurados tinham que dublar uma música e provar que mereciam continuar (a.k.a lipsync for your life). Agora, as duas melhores deverão dublar. O prêmio: eliminar uma das 3 piores colocadas (a.k.a lipsync for you legacy) e um cachê adicional de US$ 10.000,00. Logo, o que antes estava mais pra um ultimo suspiro dentro do programa, agora é uma forma de reconhecer aquela que mais se destacou e dar a ela a chance de eliminar estrategicamente a oponente que lhe convier.

Exemplo de fan art que iconografa as top 3 da oitava temporada. Naomi Smalls, Bob the Drag Queen e Kim Chi.

Como esta edição não chegou oficialmente ao Brasil, rola todo um crowdsoursing pra transmitir os episódios para cá. Uma quantidade formidável de memes faz a divulgação dos pontos altos dos episódios nos diversos grupos secretos reservados aos fãs do programa. Se não bastasse o excelente trabalho de produção da World of Wonder, a própria audiência gera conteúdo que abastece aos interessados. A exibição nos EUA é realizada pela LogoTV.

Em meme criado por algum fã, Mamma Ru incorpora as palavras de Inês Brasil. Por que localização de conteúdo é inevitável, né nom?

Em tempos cinzentos onde o jogo político brasileiro apresenta episódios tristes, humilhantes, constrangedores e vergonhosos, a atuação desses artistas torna a realidade mais suportável, nos encantando com seus talentos e curando, através do humor, esta apatia e amargura que nos assombra constantemente.

Meus votos para que estes xamãs modernos continuem nos protegendo do inevitável mal estar do mundo civilizado.

Laganja Estranja (sexta temporada), em meio a um chilique que precede a sua eliminação.

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