Livro — José Luís Peixoto

11. O Ilídio pensou nos comboios. O motivo para estar a pensar nos comboios não era evidente. Na verdade, era uma incógnita completa. Pensou nos comboios, no brilho dos comboios, mas aquilo que realmente sentiu foi falta de compreensão.

13. Não queria considerar essa possibilidade porque tudo era tanta coisa.

97. É a ausência que faz nascer o pensamento.

105. A imagem […] que, a partir daí, se enrolou à volta do peito não se dissolveu com o dia a nascer sobre os pequenos sons, apenas mudou de cor, clareou. Com a luz, o mundo cresceu.

115. Queria-a tanto. Havia uma agitação invisível à volta das suas mãos nos momentos em que pensava nela com toda a força.

119. Havia noites em que não conseguia estar em casa e havia manhãs em que não conseguia sair de casa.

119. Os pesadelos que tinha coberto com camadas frágeis de qualquer coisa […] desataram-se de novo, carne viva, pequenos lagos de sangue.

139. Por onde andarás tu, meu amor?, e havia qualquer coisa que se lhe encarquilhava nos lábios, talvez o silêncio.

149. Sentia estas palavras a passarem-lhe pela testa e, para além de se aleijar com elas, sentia que não esperava nada.

232. aquilo que sei dá-lhe realidade

253. Atravessávamos uma última vez as ruas da vila e era como se tudo fosse sendo apagado à nossa passagem

273. em todos esses momentos, eu tentava calar com ruído o ruído que trazia dentro de mim, que me constituía.

273. um entrelaçado de mundos, uma mistura.

273. Olhar para alguém e não conseguir evitar a lembrança de tudo o que conheço sobre essa pessoa e confrontrar essas imagens, e sobrepô-las.

273. É difícil explicar, cansativo de descrever e custa ter isso dentro de mim, mas não é ruído, não é caos.

281. Sorrio porque sei que, assim, o momento pode terminar, mas não sei se quero sorrir.