Mainstream x Música Preta Afirmativa

Postado originalmente em 19/02/2016 | Blogspocc

Por: Nyl de Sousa (contatonylmc@gmail.com)

MC, Agitador Cultural e aprendiz em Comunicação Crítica

Beyoncé e suas dançarinas no Superbowl 2016

Bem-vindo ao ano de 2016, onde o debate da questão racial segue quente e ganhando cada vez mais espaço nos meios de comunicação através de grandes artistas da música, no Brasil e nos EUA. Na terra do Tio Sam, Beyoncé, a grande musa do Pop, lançou o single Formation no último dia 6.

Na música, ela exalta as suas raízes, relata a violência policial e atenta para se manter em formação e buscar a informação (Get in formation/Get information). No clipe, a cidade de New Orleans, terra do Jazz e das plantações de algodão, em que pretas e pretos eram escravos é o cenário. Bey aparece em cima de uma viatura policial, sua filha Blue Ivy brilha com sua ternura afrontosa e o muro pichado grita: Parem de atirar em nós!

Na sua apresentação durante o Superbowl no dia 7, a diva entrou com um grupo de dançarinas pretas e um figurino de nítida alusão ao Black Panthers Party (ou Partido dos Panteras Negras, se preferir). A performance teve a maior audiência da história dos EUA e dividiu opiniões, gerando até protesto anti-Beyoncé, com 3 pessoas interessadas. Vale lembrar que Formation dá nome a sua nova turnê que antes de começar já tem 16 shows com ingressos esgotados até o final desse texto.

Filha de Beyoncé e Jay-Z, Blue Ivy afronta!

No último dia 15, o nome que repercutiu nas redes foi ‘’de um tal’’ Kendrick Lamar. Rapper, que desde os tempos mais undergrounds, já se mostrava diferenciado e ganhou proporção mundial com o seu 2º disco — Good Kid M.A.A.D City — que lhe rendeu indicação ao Grammy 2014 na categoria Rap, onde perdeu para Macklermore. O mesmo publicou que Kendrick foi roubado. Fazendo jus a frase ‘’O tempo é rei’’.

Kendrick lançou em 2015 seu 3º disco, To Pimp a Butterfly. E que disco! Habilidade e poesia pura regada a muito Jazz, Soul e Funky. Um legítimo manifesto sobre o racismo sistêmico e a cafetinagem feita pela indústria do entretenimento. Obra-prima que transcendeu o gênero Rap e rendeu 11 indicações ao Grammy 2016, perdendo ‘’só’’ pro Michael Jackson, o recordista.

Se já não bastasse um disco que fala por si e clipes cinematográficos, o rapaz simplesmente causou com a sua performace na premiação. De arrepiar, daquelas que serão lembradas para sempre. Começando com The Blacker the Berry (a faixa mais raivosa do disco), passando pra Alright (I feel Good de James Brown dessa geração) e fechando com uma de suas canções inéditas e sem nome (nomeada de Untitled 3).

O artista entrou acorrentado junto de dançarinos fazendo um paralelo das senzalas com as prisões, passando por um ritual tribal com direito a fogueira no palco e terminando com o desenho do continente africano e o nome Compton escrito ao centro. Melhor forma de representar sua cidade natal, berço do Gangsta Rap e território violento da Costa Oeste americana, não há. De quebra, levou 5 gramofones de ouro, mas nenhum de uma categoria fora do Rap, como Melhor Disco. Será que é racismo?

Kendrick Lamar fazendo história no Grammy 2016

E aí entra a tal da representatividade. Apresentações engajadas no dito mainstream da música são raras e tanto Beyoncé como Kendrick aproveitaram de sua notoriedade para dar espaço à questão racial na grande mídia, nos EUA e consequentemente no mundo.

Bom lembrar que esse mês é o Black History Month, Mês de celebração da História Preta estadunidense e a organização Black Lives Matter (Vidas Pretas Importam) tem feito cada vez mais barulho nas ruas desde 2012, após o assassinato de Trayvon Martin, ganhando mais evidência em 2014, durante a onda de protestos em Ferguson, contra a morte de Michael Brown. Ambos jovens, pretos, desarmados e mortos por um vigia e um policial que não foram presos e eram brancos.

Trazer visibilidade a esses fatos é de suma importância, para não dizer urgência. Sendo feito através de artistas pretos reconhecidos ganha mais peso inevitavelmente. Há quem diga que não, mas a arte é posicionamento político. Mesmo que inconscientemente. E no momento que isso é levado a sério em frente às câmeras, a presença artística ganha muito mais significado e relevância.

A menina pretinha pode se ver ali na tela e começar a se questionar sobre o que está vendo e o que está ouvindo. O racismo precisa ser combatido e ter mais gente engajada nessa luta ocupando esses espaços. Óbvio que a revolução não será televisionada (já dizia Gil-Scott Heron) mas é importante pensar como um começo, um primeiro contato que muita gente vai ter com essa abordagem.

Da esq. pra dir.: Patrice Cullors, Alicia Garza e Opal Tometi, fundadoras do #BlackLivesMatter

No Brasil, onde o racismo é velado e é ”coisa só da nossa cabeça”, há pouquíssimos artistas da música Pop que circulam os grandes meios e que são de se posicionar dessa forma. Temos um legado construído por Jorge Benjor (que passou por uma situação esses dias), Zé Keti, Tim Maia, Wilson Simonal, Sandra de Sá, Elza Soares (que lançou um ótimo disco provocativo ano passado) Hyldon, dentre outros.

Na história mais recente, há falas e performances importantes encontradas em uma rápida pesquisa. Racionais MCs, maior e mais importante grupo de Rap no Brasil causou no VMB da extinta MTV Brasil em 1998, MV Bill deixou o Faustão sem jeito e mais recentemente Emicida comentou sobre o mito da ‘’democracia racial’’ que vive no nosso país. Sem vislumbre: uma dessas emissoras faliu e o outro programa é sábado quase 0h.

Cabe a nós fazermos download do que rola pela internet. Nela existem diversos veículos que tratam diretamente do tema e abrem espaço para artistas que se posicionam e trazem uma qualidade musical incrível. Vale dar um play em: Revolta Feminina, Yzalú, Preta Rara, Aláfia, Ba Kimbuta, Antiéticos e Marcão Baixada. E sem esquecer que nas ruas e favelas é que a coisa acontece.

Viva a Música Preta Brasileira e Mundial na luta contra o racismo!