Despero

Eu queria mesmo que tivesse mais de uma foto nossa em cima desse aparador

Há três dias não uso desodorante. Tomo banhos — dois a três por dia — porque banho é uma atividade quase lúdica, um autocarinho ritualístico ao qual nós, habitantes dos trópicos podemos — e devemos — nos dar ao luxo. Tomo banho a cada vez que me sinto sujo, ou lembro. Mas não uso desodorante — se bem que desde ontem não uso o sabonete também, apesar de gostar muito do seu cheirinho na pele recém-lavada. Algo me diz que não há mais necessidade de usar desodorante, sabonete, dentifrício ou qualquer outro cosmético, não acho que os móveis desta casa vazia irão se importar. O controle, duas colheres, um copo e guardanapos, meu único material de consumo desde que você passou por aquela porta sem olhar pra trás nem apagar a luz. A televisão está ligada no mesmo canal desde então, só não faço ideia qual seja porque meus olhos gazeteiam foco nas velhas fotos das paredes, de montanhas e avós distantes. Eu queria mesmo que tivesse mais de uma foto nossa em cima desse aparador — ainda mais que a única é aquela que tiramos no aeroporto e eu estou com cara de macaco. Sempre odiei essa foto presa na moldura de dois reais da casivideo, mas você ria e dizia que eu estava bonitinho, fazendo cara de macaco ao lado da mulher mais bela de toda a criação (atual, recente e antiga). Agradeço silenciosamente essa sua mania de comprar cigarros em pacotes no supermercado, não precisei sair de casa nem pra isso, e no momento em que agradeço penso na finitude da alma, do amor, e do pacote de cigarros em cima da mesinha de centro que você comprou em Friburgo, se eu mantiver a média dos últimos dias fatalmente terei que colocar a cara na rua ainda hoje — talvez de madrugada — pra comprar mais cigarros. Queria que tivessem mais fotos para que eu pudesse ver seu rosto, não lembro do seu rosto, minha memória se ocupa de coisas muito mais importantes e meu mural de desenhos está repleto de outras imagens, seu rosto talvez seja a coisa que menos importa na ordem natural das coisas que me incomodam — e incomodam — como a case de CDs que você não levou e que eu sei que ali está o Chico Buarque que eu te dei em um aniversário de namoro qualquer e que você AMA Chico Buarque e mesmo tendo tudo em MP3 ainda prefere o CD, e seus dedos finos virando as páginas pequenas do encarte para que as letras que você conhece de cor ficassem diante de seus olhos — olhos que sorriam antes da boca quando escutavam os primeiros acordes de “Vitrines”, e eu esperava a já recorrente frase de que nunca verso tão bonito havia sido cantado quanto “passas sem ver teu vigia / catando a poesia / que entornas no chão”. Eu queria que tivessem mais fotos na parede que mostrassem seu rosto, talvez eu soubesse o que está passando na televisão há três dias ou mesmo em que canal está, pois pararia de buscar sua imagem. É provável que eu arrancasse os quadros todos e os lançasse ao chão para não ter que te ver, mas seria mais fácil acessar você sob vidro quebrado já que em minha mente não te encontro e eu começo a sentir um leve cheiro doce e ácido de suor, creio que é hora de tomar banho de novo, aproveitar para descer e comprar cigarros sem ter que incomodar as pessoas da loja de conveniência com a inconveniência de se estar indisposto (você sabia exatamente qual heterônimo de Pessoa havia dito isso, eu já me acho vitorioso em saber que foi Fernando Pessoa, e que minha memória ainda não é tão ruim), indisposto e catingoso, quero que ninguém lacrimeje com o cheiro que carrego, porque o que eu carrego é meu e ninguém tem porra nenhuma que ver com isso; catinga, chagas, cicatrizes, seu nome, só não carrego seu rosto porque não me lembro — e eu volto para o sofá porque tenho medo de que você volte enquanto eu estiver fora comprando cigarros e ache que não sofri com sua partida, não sei em qual canal você deixou a televisão e nem mesmo porque não desliguei essa merda, mas poderia descrever de olhos fechados cada ranhura da porta de entrada (por onde você saiu), eu só não poderia descrever seu rosto, porque não me lembro, e a única foto que temos em cima do aparador não faz jus a tudo o que você é, e nela eu estou com cara de macaco fedorento, desses que não usam desodorante. Há três dias.