Grafitti on the train

Tom se esgueirou silenciosamente do edredom para não acordar Márcia. Era uma manhã fria, e ele não queria que ele sentisse a ausência de seu abraço e acordasse. Hoje fazia três anos que estavam juntos, certamente ela havia preparado algo especial para os dois, mais tarde. Só que ele também tinha uma surpresa.

De moletom e capuz, saiu na chuva fina que caía sobre a cidade ainda adormecida. Estava escuro, e as ruas silenciosas lembravam uma catedral vazia. Tom conseguia ouvir as batidas do próprio coração, na excitação de ter guardado segredo por tanto tempo. Queria passar o resto dos seus dias ao lado de Márcia, nunca estivera tão feliz. Tentou algumas vezes nos últimos meses falar sobre o assunto, mas não teve coragem, até que a ideia brotou.

Márcia acordou preguiçosa, e sem abrir os olhos, levou o braço para o lado da cama onde Tom dormia. “Ah, que pena…”, pensou, ao perceber que estava sozinha. Queria começar cedo as comemorações de seu aniversário de namoro, mas Tom já havia saído. Bocejou e foi para a cozinha preparar o café.

Sorriu enquanto se maquiava, lembrando de quando o conhecera. Tom era divertido, e seu jeito sonhador a cativara desde o principio. Márcia vinha de um relacionamento desgastado, e encontrara vida em seus olhos. O que era para ser apenas um alívio para sua alma cansada agora fazia três anos. Tom pintava menos, mas continuava escrevendo. Publicava alguns textos de vez em quando, arrumara um emprego fixo para que pudessem ter uma vida estável, mas não deixava de sonhar, e isso a encantava.

Márcia bebeu o seu café, pegou a bolsa rapidamente e saiu para o trabalho. O dia começava a nascer, e ela não podia perder o trem senão se atrasaria. A cidade ficava um pouco mais confusa quando chovia, e hoje ela não podia fazer hora extra.

Com as latas de spray balançando na bolsa de lona, Tom pulou o muro da estação central. Márcia era uma mulher de hábitos, pegava todo dia o mesmo trem, o mesmo vagão, e sentava no mesmo banco. Tom sabia disso, e tinha certeza de que sua ideia não falharia.

O trem das 6 e meia era o terceiro da sequência. Pisando com cuidado nos trilhos escorregadios, Tom alcançou o outro lado, a lateral que daria para a estação de Márcia dava para um trilho vazio, e começou a trabalhar.

Durante muito tempo, Tom pintara quadros e painéis, até conhecer o grafite. Seus quadros ficavam empoeirando na garagem, ou habitavam condescendentemente as paredes de amigos. Com o grafite, sua arte poderia alcançar muito mais gente. Libertar as cores e formas pelos muros da cidade cinza, fazendo que mesmo involuntariamente centenas de pessoas tomassem contato com sua obra. Vagar à noite, com latas de tinta, compressores e ideias não era um ato simples, e Tom aos poucos abandonou o grafite ao conhecer Márcia. Já havia sido preso mais de uma vez, não se importava, mas seu amor gerava um egoísmo ao contrário, de não desejar que Márcia ficasse sem ele. Deixara de cruzar as ruas gerando cor, e se refugiara em um emprego medíocre para pagar as contas da vida que aos poucos o escolhia. Não mexia com tintas há mais ou menos um ano. Até agora.

Afastou-se um pouco e contemplou o resultado de seu trabalho. Na porta do vagão de Márcia, escrevera duas linhas, em letras grandes e emolduradas por ondas coloridas: CASE COMIGO, lia-se em cima, EU TE AMO completava o desenho. Na moldura, rosa pink, azul e bege, as cores prediletas de Márcia. Ela ficaria surpresa.

Tom ficou emocionado. Era um passo importante, e a pintura ficara linda. O que ele não conseguia falar agora estaria exposto para centenas de passageiros naquela estação. Márcia era a mulher de sua vida, e queria que todos soubessem disso. Mas , em especial, queria que ela dissesse sim. “Eu te amo”, sussurrou.

Não percebeu o barulho até que estivesse perto demais. O trem das sete vinha tomar seu lugar, e Tom ainda tentou correr, mas escorregou nos trilhos molhados.

Márcia desceu apressada as escadas da estação de trem. Remexia em sua bolsa, preocupada em haver esquecido alguma coisa. Ouviu alguém sussurrar “malditos surfistas de trem”, e outra pessoa dizia “morreu debaixo das rodas, o trem das sete deve atrasar”. “Ainda bem que é o das sete”, pensou, enquanto conferia na bolsa tudo o que havia preparado para aquela noite: uma nova lingerie, o chocolate que Tom estava comendo quando se conheceram, o vinho que ele mais gostava. Só faltavam as velas, mas isso ela compraria quando no caminho de casa.

Pelo barulho, soube que o trem chegara. Fechou a bolsa e olhou para a frente, procurando para ver se o seu lugar de sempre estava vazio, quando viu o grafite.

CASE COMIGO. EU TE AMO.

Seu coração parou por um instante. Tom. Levou as mãos à boca, os olhos se encheram d´água. “Ele quer casar comigo”. Reconheceu as cores, as letras, o pedido. Tinha sido ele mesmo, só Tom sabia o quanto ficaria surpresa. Ele havia largado o grafite, mas agora usara as suas cores preferidas para dizer as palavras que mais ansiava escutar. Agora não tinha mais dúvidas, seriam felizes, felizes para sempre. “Eu também te amo”, sussurrou, e meteu a mão na bolsa para pegar o celular. “Sim sim SIM SIM!”, diria para ele, “Caso com você, eu te amo, ah meu amor…”

O celular chamou, chamou, mas ninguém atendeu.

Aquele tinha sido o seu último grafite. Seu último trem.

RODRIGO SANTOS

Conto baseado na música homônima do Stereophonics

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