Grape Jam

“Ele tem outra família, só pode ser” — Lourdes murmurava pra si mesma. Após quarenta e dois anos de casado, uma coisa podia ser dita de Rubens: ele era um homem de hábitos. Depois que se aposentara, dedicava-se à pequena casa no Ingá, com seus pássaros e cães vira-latas. Todos os dias, no fim de tarde, caminhava até o Campo de São Bento para jogar sueca com outros velhos como ele, e conversar sobre os velhos tempos. Um marido exemplar, nunca deixou faltar nada dentro de casa, nunca dormiu com uma lâmpada que fosse queimada, ou uma torneira pingando. Incansável, capinava o jardim todos os sábados, limpava todas as gaiolas, dava banho nos cachorros, sem nenhum sinal de doenças da velhice — apesar de seus 62 anos, enquanto Lourdes mal podia fazer seu tricô mais devido à artrite e ao reumatismo que lhe encrispava os dedos e a fazia necessitar de Conceição, há 20 anos trabalhando na casa deles. Após tomar o café da manhã na mesa arrumada, passava os domingos sentado em sua poltrona, vendo qualquer atração esportiva que fosse, torcia para a Ferrari desde os velhos tempos, e para o Botafogo. Gostava de geleia de uva, Jornal do Brasil e comparava todos os presidentes a Getúlio Vargas. Era um homem da velha escola e, decididamente, um homem de hábitos.

Só que agora esses hábitos eram outros. Rubens passara a sair um pouco mais cedo para a sueca, perdendo o almoço, terças e quintas-feiras. Chegava com outra cara, parecendo rejuvenescido. Ora, Rubens era um homem que nunca tivera problemas de saúde, mesmo depois de velho. Diligente, não delegava tarefas, mesmo as mais difíceis. Resolvia seus problemas com um vigor que fazia Lourdes sempre lembrar o motivo de haver se casado com ele. Ele ainda era um homem atraente, pensava Lourdes, com seus cabelos grisalhos. “Ele tem outra”.

“Será que ele me enganou todos esses anos?” — ela pensava — “e se ele tiver outra família? Quantos casos a gente não vê nesses programas de televisão de homens perfeitos que o são justamente para esconder o fato de terem outra família? Aimeudeusdocéu…”

Mas Lourdes na verdade preferia não saber. Ficava pesando todos esses anos, e chegava à conclusão de que Rubens havia sido muito bom para ela. Chegou a ensaiar o discurso que faria quando ele contasse para ela — e ela possuía essa certeza, Rubens era um homem muito bom. “Olha, Rubens, eu te perdoo. Mas eu quero conhecer esta mulher”. Sim, afinal, eram companheiras de jornada, dividiram o mesmo homem, os mesmo problemas, durante todo esse tempo. Lourdes chegava a se permitir uma pontinha de sorriso ao pensar em sua mais nova “amiga”. Será que ela era mais bonita que a Lourdes? “Ah, mas se fosse, o Rubens ia ver só…” — pensava ela, resignada. Isso, claro, até o Rubens pintar os cabelos.

Quarenta e dois anos de casado. quarenta e dois, e o Rubens nunca havia pintado os cabelos! De repente ele sai do banheiro em uma quinta-feira de manhã com os cabelos mais negros que asa de graúna! Pronto, Lourdes danou a pensar. Não era uma outra família, pois a outra já estaria pelo menos acostumado com ele como era — e até gostava, como ela própria. Era uma nova mulher, e… uma mulher nova! Era isso, Rubens estava de caso com uma garotinha!

Era demais. Depois de quarenta e dois anos, um homem velho como ele, será que não tinha vergonha? Isso era culpa dessas novelas, que ficavam mostrando esses velhos tarados correndo atrás de ninfetas. Meu deus, o Rubens… Quem diria? Quem poderia acreditar nisso? Era demais mesmo. “Ah, mas ele me paga!” Resolveu segui-lo.

Quinta-feira de manhã, esperou ele sair de casa e foi atrás. Sentiu-se uma detetive de livro de Agatha Christie — que ela gostava muito — e foi seguindo o marido. No entusiasmo, esquecera até mesmo os óculos em casa. Rubens entrou em um ônibus, ela pegou um táxi.

- Siga aquele ônibus! — ela sempre sonhou em dizer aquilo! Mas não, o máximo que conseguiu foi “filho, você pode ir atrás deste ônibus para mim, por favor?” Tinha uma alma investigativa, mas seu corpo já não obedecia a esses impulsos. Era uma senhora, deveria se comportar como tal. Por que Rubens não pensava assim?

Rubens saltou em frente a um colégio, era hora da saída. Safado, então era mesmo uma ninfeta! Lourdes sentiu o coração pular dentro do peito. “Ah, minha pressão!” — ainda bem que tomara um captopril a mais quando saiu de casa.

Do outro lado da rua, Lourdes esperava. Entrou em uma padaria e pediu uma água, e ficou esperando, enquanto Rubens aguardava na porta da escola. “Descarado” — Lourdes pensou enquanto mastigava o canudo.

De repente, no meio dos outros adolescentes, ela saiu. Era linda, mesmo pelo pouco que a visão de Lourdes — já prejudicada pela idade — permitia ver. Cabelos negros esvoaçantes, quadris largos, seios fartos de adolescente, ainda por tomarem forma. Saiu correndo e abraçou o Rubens! Ah, mas ele ia ver.

Atravessou a rua ofegante. Ia enfartar, pensou. quarenta e dois anos de casados jogados assim, no lixo e nos quadris largos daquela menina!

Aproximou-se por trás do casal, enquanto via a menina passar a mão nos cabelos recém-pintados de Rubens. Então ela gostou, né? Menina safada, se aproveitando da fragilidade de um homem velho!

Bateu nas costas de Rubens.

- Seu velho safado! Então é por isso que você pintou os cabelos! É aqui que você vem todas as terças e quintas, né?

- Lourdes? — o homem parecia surpreso.

- Isso, sua esposa, sua esposa há quarenta e dois anos! E agora você me troca por esta… esta… esta criança!

- Mas Lourdes… — ele parecia quase sorrir.

- Não tem nada de Lourdes! Você não tem vergonha?! E você, menina, o que você pensa da vida? O que você acha que…

- Vovó?

- Como?

- Oi, vovó, sou eu, Priscila!

Priscil… Ah, tá! A filha de Mariana!

- Lourdes, você está louca? — disse Rubens, rindo — Não reconhece mais nem a sua própria neta?

- Vovó, o vovô não ficou um gato com esse cabelo pintado? Eu que falei para ele, um coroa gatão assim, com aqueles cabelos brancos… — e Lourdes não ouviu mais nada.

Quando Rubens foi tomar café na manhã seguinte, percebeu que Lourdes havia colocado geleia no seu pão, em vez de margarina. Depois de quarenta e dois anos de casado, ele sabia que isso era o máximo de que ela poderia chegar de um pedido de desculpas. A geleia era de uva.

Rubens sorriu.

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